quinta-feira, setembro 20, 2007

RETALHOS DAS MINHAS MEMÓRIAS-MOÇAMBIQUE 1

Moçambique, Ah Moçambique.

Quantas recordações, quantas saudades daqueles tempos, em que eu era um miúdo.

Lembro-me da emoção, que sentia, quando nas férias depois de passar um ano de estudos, com os meus avós em Mangualde, (eu estudava no que era considerado um dos melhores colégios de Portugal. o São José e Santa Maria) regressava a África para passar os meus três meses de férias.

Não só porque ia ver a minha família, mas sim porque, eu me sentia mais livre, ao regressar a terras africanas...

...Uns calções, uma camisa, umas sandálias, um fato de banho e uma toalha, era tudo o que necessitava para andar naquela Beira que eu sempre adorei.

...As matinés do Cinema Rex e do Olimpia, um café gelado no Scala ou no Capri, e um parfait no restaurante do Emporium. Mmmmm, ainda me lembro do sabor daquele parfait, que por muito que haja andado pelo mundo, ainda nâo encontrei, até hoje um que soubesse como aquele do Emporium; talvez porque sempre ia com a minha namorada, que mais tarde foi a minha mulher, mãe da minha filha Isabel. As manhãs na piscina do Grande Hotel, as ameijoas do Oceana com uma cervejinha Manica, tanta e tanta coisa, que estão bem gravadas na minha memória


...O meu pai foi um bom amigo do Araújo,(foto) e mal podia, eu apresentava-me com o velho caçador e perguntava-lhe se podia ir ajudar no acampamento do Kanga N’Thole. Se havia algum trabalho para mim para ajudar no quer que fosse?

Sempre ia pelo menos uns 15 dias até aquele acampamento que eu adorava, nas margens do Rio Inhangdué, no distrito da Gorongosa.

Ajudava no que podia. Ia levar material aos acampamentos do Tengane, do Inhanfisse e Inahmapaza,

Naquele tempo os meus ídolos eram o Wally Johnson e o Harry Manners, que trabalhavam para o Araújo como guias.

Com os anos comecei a conhecer aquela área como se fosse a minha rua. Não havia picada, ou caminho que eu nâo houvesse trilhado, quando cheguei à idade de poder ser caçador-guia...

Fui o caçador-guia mais jovem que havia naquele tempo, e tudo por uma coincidência do destino.

...O Dr. Azeredo Perdigão, que era o Presidente da Fundação Gulbenkian, era tio do namorado de uma prima direita minha, hoje marido dela, da minha prima Teresa.

...o meu avô Cabral, dava-se bem com essa família de Viseu,

Eles estavam em Moçambique convidados pelo que foi Ministro do Ultramar, Almirante Sarmento Rodrigues, que naquele tempo era Governador Geral de Moçambique.

Nessa viagem, eles tinham como parte do itinerário, uma visita de 6 dias de caça ao Kanga N`Thole.


Por coincidência eu estava lá de férias pensando regressar a Portugal para ingressar à Universidade, pois tinha acabado o Liceu, e encontrava-me de férias em Moçambique e no Kanga N’Thole. ...acompanhava como “ajudante” ao Araújo, no curto safari que eles queriam realizar. O velho Araújo, já naquele tempo tinha um grande problema respiratório que não o deixava caminhar muito, o que muito me ajudou, para que se desse o episódio que mudou a minha vida.

Saímos do acampamento o primeiro dia, para ver se matávamos alguma coisa. Atrás do nosso carro, vinha a comitiva daqueles personagens, em três carros mais. Era um barulho dos diabos, a senhoras falavam alto e os animais agradecidos pelo aviso, pois corriam e nâo davam chance para atirar a nenhum. Total, regressámos ao acampamento com uma vil gondonga e nada mais.

Eu sabia que o que lhe gostava ao Almirante era caçar búfalos.

Nesse dia, depois de comer, à hora de mais calor, todos foram dormir a sesta, e os guarda costas da PIDE, também se retiraram para as suas instalações.

Eu estava no bar, sozinho, quando chegou o Almirante S. Rodrigues.

Então eu disse-lhe: Senhor Almirante, com tanta gente a fazer barulho, o Sr. nâo vai caçar nada.

E que opinas tu? Perguntou o Almirante? Avise ao seu pessoal e vamos, eu levo-o onde penso que andam os búfalos. Fui falar com o Araújo e disse-lhe o que tinha dito ao Almirante, e sempre lhe agradeci a confiança que teve em mim e me deixou levar o meu primeiro cliente “solo”.

Saimos com o Macorreia e com o Fombe, e fomos direito à lagoa da Lunga, uma lagoa enorme que havia na coutada no 1.

Mal chegámos à área da lagoa, vimos logo o rasto de uma grande manada de búfalos que tinha estado a beber não havia muito tempo. Seguimo-la com o carro e vimo-la ao longe no tando do Inhanfisse.

Baixámo-nos da camionete, uma Chevrolet Apache Modelo 1954, e lá fomos nós aproximando-nos aos búfalos. Os dois “messires” Fombe e Macorreia, escolhiam o vento e, escondendo-nos com os “M’Cheus” chegámos a uma distância de uns 70 metros dos búfalos. Eu escolhi o que me parecia um bom troféu e disse-lhe que disparasse. Tiro dado à altura do coração e os búfalos arrancaram numa estampida.

Vimos ao que o Almirante tinha atirado, caminhar devagar e vi que lhe estava saindo sangue pelo nariz aos borbotões. O Almirante queria atirar e eu disse-lhe que deixasse que ele cairia num momento. E assim foi, o búfalo foi ao chão e fez aquele mugido que somente faz quando está a morrer.

Caminhámos até ao búfalo e chegámos-lhe por trás e vimos que estava morto. O Almirante apertou-me a mão e agradeceu esta caçada.


Depois de carregar o búfalo em duas partes, continuámos a nossa volta, e mais adiante vimos uma Pala-Pala, que também foi ao chão com um tiro do velho Almirante.Para cúmulo da “minha” sorte, quando íamos a sair a um dos tandos, os pisteiros, disseram,” pára, pára” e o Fombe estava a mostrar-me um leâo, que estava a comer, numa isca que tinha deixado havia dias o Chico Coimbra.

Nem tarde nem cedo, o Almirante agarrou a arma e disparou-lhe um tiro de 375, que fez o animal saltar, correr um pouco e caiu morto.

Que dia de safari... e sabem quê, nem ele nem eu levávamos uma máquina fotográfica. Eu porque não tinha dinheiro para comprar uma, e o Almirante porque a tinha deixado com a esposa que estava no acampamento.

Mas as recordações ficaram.

Chegámos ao acampamento com todo o pessoal a cantar a morte do leão.

Vieram-nos a receber e eu, ainda que não o demonstrasse, estava super orgulhoso, do meu primeiro safari que conduzi sozinho.

Já tinha que contar à minha namorada, a Gugas, quando chegasse à Beira.

Durante os dias que esteve a visitar-nos a comitiva do Almirante, ele disse-me:

“Victor, sei que não tens licença de caçador-guia. Gostarias que eu te conseguisse uma?” Pois claro...era o que eu mais queria. Por sorte tinha umas fotografias na minha carteira e quando acabou o safari, ele levou-as.

Uma tarde estava eu no acampamento e vi chegar um jeep da polícia e vieram entregar-me a minha licença de caçador-guia, que marcou assim o meu abandono dos estudos para começar uma vida de aventuras, da qual não estou nada arrependido.

O meu melhor amigo e companheiro de colégio, fez-se engenheiro electrotécnico, e ganhava naquele tempo em Lisboa perto de 5 contos, e eu comecei imediatamente a ganhar 12 contos mais as gorjetas que alguma vez ultrapassaram o meu salário, e por cima pagavam-me muito bem, por aquilo que mais gostava fazer.

Amigos este é o primeiro relato dos Retalhos das Minhas Memórias em Moçambique.

Victor “Hunter”

1 comentário:

Dafne Machado disse...

Trabalho para um programa de televisão e estou a pesquisar para um tema relacionado com portugueses que tenham vivido a mocidade nas ex-colónias portuguesas. Tinha interesse em contactá-lo. O meu email é dafnelorenamachado@gmail.com

Obrigada
Dafne Machado