terça-feira, setembro 25, 2007

RETALHOS DAS MINHAS MEMÓRIAS - SUDÂO (5)

Como mencionei atrás, o meu acampamento de James Diko, estava na "ponta" mais ao Sul do Sudão, quase na fronteira com a Zaire, fronteira essa, que eu nunca soube onde era precisamente. Naquele tempo nâo existiam GPS, para que eu pudesse demarcar com precisão, a fronteira.
Muitas vezes andávamos atrás dos elefantes e John, o meu pisteiro, me dizia. "Aqui é o Zaire".
Eu nem me tinha dado conta de que estávamos nesse país.
Mas para que a coisa fosse "legal", conto-lhes uma brevíssima historia, de como consegui a autorização, para caçar no que é hoje Congo.
Um dia chegou ao acampamento, pela tarde, um homem e uma mulher com um bebé que trazia um bracinho todo queimado. O bebé tinha metido o braço numa panela de água a ferver, e estava muito mal. O homem perguntou-me se eu podia fazer alguma coisa por ele. Mas o que mais gostei foi que o homem falava um francês mais ou menos intendível. Contou-me como tinha sido o acidente, e tambem me contou, que ele era o CHEFE AZANDE, (Zémio) o maior daquela região tâo remota. A sua Jurisdição ia até ao Rio Uele, que passava a uns 30 quilómetros ao Sul, rio esse que mais tarde se transforma no fabuloso Ubangui-Chari, que passa pela República Centro Africana. Perguntei-lhe como "andava ele de elefantes", enquanto ia limpando as feridas que tinha o bebé, com Savlon que é uma substancia para limpar e se usava também e cirurgia.
Disse-me que havia muitos na sua zona e que se eu quisesse podia ir lá matar os que quisesse. Mais uma vez eu lhe perguntei, se não havia problema e ele comentou-me que ELE É QUE MANDAVA, porque o presidente não mandou nunca nenhuma ajuda para eles etc etc.
Terminei de vendar o bracinho do miúdo com aquelas vendas amarelas que têm uma substancia para as queimaduras, que era parte do botequim que era obrigatório trazer nos carros de safari.
Falando com o Chefe, disse-lhe que era melhor que ficasse numa das casas, dos trabalhadores com a sua mulher para que eu pudesse dar continuidade ao tratamento do miúdo, até que estivesse fora de perigo.
O homem agradeceu-me muito, John levou-o a instalar-se e eu à noite, mandei-lhe meia garrafa de rum que trazia dentro da caixa das bebidas.
Total a partir daquele momento foi um grande amigo, e ser amigo do Chefe dos Azandes, não é coisa pequena, porque segundo John , o homem era o ser supremo naquelas terras. John um dia disse-me que se havia alguma coisa grave na sua jurisdição, ele podia até mandar matar a alguém.
Depois disso, encontrar elefantes "era canja" como diziam na "nossa" terra, "lá nos Beira".
Também notei que a mulher do chefe, tinha uma tremenda papada devido à falta de iodo, pois criou bócio, doença que havia muito naquela região, por falta de sal de mar iodatado. Disse-lhe que quando viesse o avião de Juba trataria que me mandassem pastilhas de iodo para que a sua mulher as tomasse e a doença parasse aí ou talvez até curar-se. Durante os meus anos de andar em África, notei que uma pastilha que a nós somente era um paliativo, a um negro que nunca tinha tomado nada de medicamentos, fazia milagres.
Durante o safari de Pitt eu já tinha a "autorização" e um dia à noite chegaram uns homens do Chefe a dizer-me que fosse a um lugar que lá andavam muitos elefantes.
Preparámos tudo, e aí nos vamos Pitt e eu em direcção ao Zaire, por uma picada que eu tinha mandado abrir para chegar até o que eles diziam que era a fronteira.
Começámos a caminhar, mal nasceu o Sol e não tardou meia hora que ouvíssemos os elefantes barritar.
Havia uma pequena colina e vimos os elefantes abaixo a entrar numa floresta fechada que rodeava um rio.Como o veto estava às mil maravilhas, sempre soprando-nos na cara, seguimos a manada e começámos lentamente a entrar na floresta para ver se víamos o tal elefante de pontas compridas que Pitt queria para fazer a sua cama. Íamos muito devagar, vendo sempre como soprava o vento,, quando John parou e mostrou-me ao meu lado esquerdo, encostado a uma grande árvore um elefante com pontas compridas, ainda que nâo fossem tâo pesadas. Perguntei a Pitt se lhe gostavam e como a resposta foi afirmativa, preparámo-nos para atirar, porque po elefantes estava a menos de 20 metros de nós a a olhar para nós, sem saber que fazer, pois nâo podia olfatear-nos. Eu baixinho disse a Pitt, atira que eu ajudo-te. Vio-o apontar a 458 e eu apontei com a 577, ele disparou, e logo eu. Vi como o elefante recebeu o impacto daquelas duas balas poderosas e vi como levantou as duas patas dianteiras, e caiu para o lado. As pontas eram bonitas compridas , mas nâo pesavam muito; era o que Pitt queria.
Sacámos as pontas e seguimos para o Sudão sem primeiro mandar cortar a melhor carne para que fosse enviada ao meu amigo O Chefe Azande.
Cacei vários elefantes nesse lugar ao redor do Rio Uele.
É um lugar que nunca esquecerei, porque aí havia uma paz, somente quebrada por mim, com algum tiro, quando caçávamos elefantes ou bongos.
Victor "Hunter"

RETALHOS DAS MINHAS MEMÓRIAS - SUDÂO (4)

Os safaris continuavam de vento em poupa, somente com as dificuldades, em alguns atrazos da gasolina que às vezes demorava mais tempo do que o previsto, ou pelas chuvas, ou pelos soldados do Idi Amim, mas sem nunca ser uma coisa demasiado importante, porque ao fim sempre chegava o que tínhamos encarregado.
Eu continuava no acampamento da floresta, James Diko, e estava em contacto constante com a nossa base em Juba, via radio.
Pitt eu eu continuámos o nosso safari, tranquilamente até que um dia ao atravessar um rio que estava quase todo cuberto com plantas aquáticas, vimos duas sitatungas fêmeas e uma pequena.
Parámos e não vimos o macho. Caminhámos um pouco rio abaixo até que encontrámos uma floresta aberta e com umas pedras, onde nos sentámos, sem fazer nenhum ruido, para ver se conseguíamos avistar o tâo desejado macho de sitatunga. Era a nossa rutina: pela manhã caçávamos procurando elefantes e pelas tardes sentávamo-nos naquelas pedras a ver se saia o animal.
Andar no meio das florestas, fechadas caminhando e buscando pegadas de elefantes, era frustrante, pois muitas vezes não se encontrava nada e aí o jeep somente servia para deslocar-nos nas picadas e o resto "era à pata" "cuenda na muendo" como diriam em Moçambique. Então o meu pisteiro John que tinha nascido no Zaire ainda que vivesse no Sudão, disse-me que o melhor era ele ir falar com uns familiares e que eles procurassem os elefantes para nós, e que cada dia à noite nos mandassem recado a ver se tinham encontrado ou não os elefantes, que na floresta densa, não caminhavam tanto como os das savanas que se têm que refugiar longe donde bebem, e assim seria mais fácil alcança-los.
Esta "estratégia" dava-nos mais tempo para estar a procurar a nossa Sitatunga".
Um dia pela manhã muito cedo, pois aquela hora ainda não se via quase nada, tendo nós que usar uma pequena lanterna para ver onde pisávamos, íamos ver umas pegádas de elefante que nos tinham dito que existiam uns habitantes do lugar, quando nos começou a cair em cima uma chuva torrencial. Sacamos as nossas capas impermeáveis, tapando bem as armas, e aguentámos debaixo de umas grandes árvores da floresta fechada. Estivemos aí até que passou a chuva, mas com tanta chuva elefantes, nada. Iríamos ao acampamento, e depois de comer, sairíamos ver o lugar onde esperávamos a sitatunga.
Pitt estava com frio porque a chuva nos tinha calado até aos ossos ainda qe tivéssemos as capas, e ele levasse um casaco bastante quente.
Íamos na direcção ao jeep, quando John se baixou e apontou para uma animal que se movia à borda da floresta. Era um dos animais mais difíceis de conseguir, porque somente o podes caçar se o encontras assim como nós. Era um YELLOW BACKED DUIKER, o maior duiker de África e bastante raro. Há poucos caçadores que o tenham no seu haver.

Pitt ajoelhou-se, apontou bem e Buuuuuuuummm. Animal ao chão como ele quase sempre fazia.
Tínhamos conseguido, sem procurá-lo, um dos animais mais raros da floresta equatorial e de África.
A chuva que tanto nos tinha aborrecido, tinha sido uma bênção, porque eu aprendi que estes animaizinhos quando chove, vêm às bordas das floresta para aquecer-se e comer a erva fresca das pequenas clareiras.
Tinha sido um bom dia e produtivo para o nosso safari.
Victor "Hunter"

RETALHOS DAS MINHAS MEMÓRIAS - SUDÂO (3)

Ao chegar ao Sul do Sudão, onde se iriam realizar os nossos safaris, encontrámo-nos com vários problemas. Melhor, eu como andava na angariaçâo de safaris por "todo o mundo", mandei adiante a António Guerreiro,(angolano) ao Luís Lopes da Silva (moçambicano) ao Carlos Fortunato (angolano) ao António Monteiro (Kubitcheck), e ao nosso mecânico Matias, que trabalhou muitos anos em Vila Pery.
Tiveram que instalar-se numa casa que alugaram, que mais tarde nós compraríamos para servir de Lodge, nâo só para nós como para os clientes que chegavam de todos os lados e tinham que passar alguma noite em Juba. Em Juba havia somente um hotel chamado Hotel Juba, que era do governo, e que aparte de ser caríssimo, era uma casa de madeira e zinco, cheia de baratas e a comida nâo era de todo muito higiénica. (Nas minhas memórias, conto todas as peripécias de instalação e verificação das áreas, etc.).
Começámos os safaris no dia 5 de Janeiro de 1976, 5 meses exactos, depois da minha "fuga de Angola" com todo o equipamento. Jeeps, Unimogs(2), tendas de campanha, geleiras, congeladores, roupas de cama e de banho, geradores de electricidade e sobretudo os jeeps que vinham carregados com caixas de comida e lataria que tínhamos comprado em Walvis Bay (Namibia), antes de embarcá-los para Mombassa, porque no Sudâo, em Juba, eu sempre dizia que dava 100 dolares a quem pudesse comprar 5 latas de sardinhas ou de salsichas. Nunca ninguém os ganhou.
E a gasolina? Tanto para os jeeps, também o diesel, e a gasolina para o aviâo?
Tínhamos que comprar por camiões e, tinham que vir de Nairobi, através dum país governado pelo louco do Idi Amim, que era o Uganda. Imaginem somente um pouco as dificuldades que tínhamos: até os ovos para os matabichos, os voávamos de Nairobi, assim como as verduras em sacos de 25 kilos desidratadas.
Mas tudo conseguimos superar, com um pouco de organização e muita força de vontade.
Um dos safaris que fiz, e que vou contar, para que tenha continuidade, foi com aquele senhor que também cacei em Angola, que já conhecemos de nome. Pitt Sanders.
Pois bem o Pitt queria os antílopes raros que lhe faltavam:
Um Bongo, que era o troféu principal, já tinha varios elefantes, e necessitava umas pontas compridas porque queria mandar fazer uma cama com as pontas como cabeçeira, como ele me mostrou o desenho que trazia em um caderno.
Como em Angola tínhamos "falhado" a sitatunga, queria ver se era possível matar uma no Sudão. Tambem queria um Mrs. Grey's Lechwee, ou Lechwee do Nilo, e o que fora saindo como dizia ele.
Ao chegar a Juba, encontrámo-nos que as caixas das armas de Pitt se tinham "desviado" em Londres e chegou sem armas. Não havia problema, eu tinha a minha velha 375 Brownning para emprestar-lhe e uma 270 para o que fosse, e para os elefantes podia emprestar-lhe uma 458 que sempre trazia no meu "jogo" de armas. Assunto arrumado. As armas chegariam mais tarde, uma semana depois. Fomos no nosso avião até Yambio, onde o meu chauffer já me estava esperando com o jeep e seguimos imediatamente para o nosso acampamento de James Diko, que ficava a uma hora de Yambio.
Pitt perguntou-me que tal me tinha ido de bongos esse ano, eu somente lhe respondi que tínhamos feito 100% de bons resultados. Aprendemos rápido com a ajuda dos meus pisteiros AZANDES, John e Hassan. John era meio pigmeu e Hassan era Azande que tinha adoptado um nome muçulmano, durante a guerra do Sul, para que não o matassem, porque isso sim, era "borracho como o vinho", e os verdadeiros maometanos não bebem álcool.
No primeiro dia levantámo-nos perto das 4 da manha para matabichar bem; metemo-nos no Toyota e fomos até a um lugar que era meu costume visitar, onde havia uma grande "salina" onde os animais vinham comer aqule pasta esbranquiçada, que estava cheia de minerais. Igual que os elefantes, por isso tinham aquelas pontas tâo compridas e perfeitas quase sempre. Caminhávamos em silêncio, eu ia à frente por um carreiro, que já tínhamos feito previamente e quase ao sair da floresta que atravessávamos, vi um bonito BONGO, a comer numa clareira. Ele nâo nos pressentiu e naquele momento encobriu-se por uma morro de termites ou formigas, o que aproveitámos, Pitt e eu para poder chegar-lhe sem que nos vira. Pitt levantou a 375, apontou, disparou e
(note-se as sombras, era quase ao nascer do sol)
BINGOOO- Bongo no chão.
Era uma beleza de troféu. 29" polegadas, entrava no livro de Records da Rolland & Ward.
O animal mais difícil em África de caçar, somente em duas horas depois de sair do acampamento e no primeiro dia de caça. Há gente que tem sorte.
O Pitt nâo cabia em si de contente. E eu por mim sabia que era o trofeu que mais lhe interessava, esse safaris ia ser tranquilo e sem pressões.
E o safari continuou divertido e com a companhia do meu bom amigo Pitt Sanders.
Victor "Hunter"

RETALHOS DAS MINHAS MEMÓRIAS-SUDÂO (2)

...

Quando vos comecei a contar as minhas andanças pelo Sudão anteriormente, foi um pouco longo, porque lhes quis contar alguma coisa dos conhecimentos que adquiri, desse país tão grande e tão complicado como é essa nação.

Tanta e tanta tribo diferente, é quase impossível pô-los de acordo. Ë um país que sempre teve dois governos.

O do Norte e o do Sul.

Khartoum vista aérea do Nilo e da ilha (Tromba = Khartoum)<

O Norte com a capital em Khartoum quase 100% muçulmano, olham para os do Sul, que sâo negros, com desprezo, consideram-nos numa casta inferior, e usan-nos como criados. Isso nota-se como os tratam, se alguem possa entender um pouco do árabe que falam no Sudão.

A maioria dos Sudaneses do Norte, têm rasgos negroides, e a pele escura, por as múltiplas misturas com as escravas do Sul que durante alguns séculos se foi produzindo.

Vestem-se com as “gelabias” ou djilabas brancas, usam turbante e sâo como todos os muçulmanos religiosamente fervorosos, até ao ponto de serem de um fanatismo atroz. Já lhes contarei o que passou a um dos nossos caçadores de Moçambique, o Luís Lopes da Silva, por esse fanatismo.

O Governo do Sul, cuja capital é Juba,

foto: Juba vista do aeroporto)

onde não há Presidente, mas somente um vice-presidente, eleito e “tolerado” pelo governo de Khartoum.

As maiores tribos do Sul, estâo formados pelos Dinkas e pelos Nueres, que sao tribos nilóticas. Estas duas tribos composta com homens e mulheres de uma altura que tem uma media de 1.90 metros e que muitas vezes ultrapassa os dois metros.

Por a beleza corporal destas tribos, foram durante muito tempo as escravas e escravos favoritos dos “árabes” do Norte.

Como protesta e rebelião a essas práticas, os Dinkas e os Nueres, nunca quiseram usar qualquer vestimenta. Andam nus sem se importarem o mais mínimo, se os consideram “selvagens”. São criadores de gado e têm manadas impressionantes nas margens do Nilo, e especialmente no Rio Bahar–el-Gazaal.

Muitas vezes aproveitei as manadas dos Dinkas, para aproximar-me aos antílopes que queria caçar, que nâo temiam o gado, mas sim às pessoas.

A caça no Sudão era das melhores que havia em África, por as diferentes espécies que há naquele tão extenso país.

Nós tivemos varios acampamentos, no Sul do Sudão.

Aqui não era possível naquele tempo ter acampamentos fixos como tínhamos em Moçambique e Angola. Tudo era à base de barracas “Manyara” e a única coisa que eu sempre mandava construir fixo era uma “macheze” (nome sena) e um banho fixo, porque não gostava nada dos banhos de tendas.

Nestas andanças pelo Sudão, falarei muito de algumas tribos que eu encontrei fascinantes, sob o ponto de vista etnológico.

Victor “Hunter”

RETALHOS DAS MINHAS MEMÓRIAS-SUDÂO (1)

Por: Victor Cabral “Hunter”

O Sudâo, é para a maioria das pessoas um lugar de África totalmente desconhecido.

Sim, vêem-no no mapa, sabem que está ao Sul do Egipto, que a capital é Khartoum e pouco mais.

Pois bem, para os que nâo sabem..., e que gostam de saber.

Este país é o maior país de África: tem fronteiras ao Norte com o Egipto, a Noroeste com o Mar Vermelho, a Este com a Etiópia e Eritreia, a Sudeste com o Kenia, a Sul com o Uganda e com o Congo (Zaire), a Sudoeste com a República Centro Africana, a Oeste com o Chade e finalmente a Noroeste com a Líbia.

Agora imaginem o tamanho deste país depois de mencionar todos os países com que faz fronteira.

É um lugar de África onde se falam mais de 100 dialectos e línguas, é de uma complexidade tâo grande, que o faz um país com uma imensa falta de entendimento entre as tribos e raças que lá existem.

Por exemplo: Um sudanês do Norte, que habita nas margens do Nilo em Abu-Simbel, ou Wadi-Halfa, (foto) nâo tem nada que ver com um negro sudanês (foto) que habita a floresta equatorial ao Sul, no que se chama a Província de Equatória.

O do Norte fala árabe, diz que descende dos Egípcios dos faraós e o outro, que pertence à tribo dos Azandes, o que quer é sobreviver na floresta, onde é colector de mel, raízes, de bolbos comestíveis e, é um caçador e pescador nato.

Se uma pessoa observa os habitantes das colinas do mar Vermelho, os Fuzi Huzi, ou Nubios, (foto) vêm que sâo completamente diferentes dos negros que habitam as montanhas do Kordofan os Nubas; (foto) nem se conhecem, nem se entendem. E assim acontece com uma quantidade de tribos, que alguns nem sequer sabem hoje, da existência de alguns dos seus conterrâneos.

Agora imaginem um país assim, e entao dar-se-ão conta dos problema, étnicos, sociais e políticos, que se geram dentro dele, guerras tribais, xenofobia, guerras civis, como a que vão atravessando há mais de 20 anos, apesar de tratados e de acordos feitos pelos chefes em turno.

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Quando no ano de 1975, depois de estalar a guerra civil em Angola, me dirigi ao Sudâo, eu era o primeiro português que me atrevia a ir desafiar as dificuldades de pôr uma companhia de safaris no Sul desse país. Havia dois anos que se tinha terminado uma guerra civil que tinha durado 17 anos, entre o Norte e o Sul.

Depois de muitas peripécias, cartas de recomendação, e de untar as mâos a mais de um político do Sul, para que me foram concedidas as áreas de caça que queria, instalei-me no Sudâo onde estive por um prazo de oito anos, guiando safaris, tanto na floresta equatorial, como nas savanas que vão desde o Rio Nilo até à Etiópia; cacei a área dos grandes lagos formados pelos vários afluentes do Nilo.

Cacei sitatungas no lago Nibor, e nos pântanos formados pelos vários afluentes do Nilo, o Bahar-el-Gazzal e o Bahar-el-Seraff; neles cacei os antílopes mais bonitos que vi na minha vida: os Mrs.Grey’s Lechwee e os White Eared Kobs ou Cobs de Orelhas Brancas.

Nas florestas abertas nas áreas do Rio Sue, e de Rumbek, cacei o famoso Eland Gigante. (foto G. Eland)





Na floresta Equatorial, pegado ao Congo (Zaire) cacei muitos Bongos, (foto Bongos) e alguns Giant Forest Hogs, ou javalis gigantes da floresta, e os raros Yellow Backed Duiker; lá cacei tambem os grandes elefantes, de pontas de mais de 2.60 mts de comprido e de mais de 45,36 quilogramas cada ponta.

Nas colinas do Mar vermelha cacei alguns Ibex de Núbia, que é a única cabra selvagem existente em África.

O famoso e histórico Enclave de Lado, terra que antigamente foi o paraíso dos caçadores de marfim foi tambem cenário de muitas das minhas caçadas. Terra em que J. Suntherland, um grande caçador africano, caçou, amou e morreu. Visitei a sua abandonada tumba que está num lugar perdido na selva da floresta equatorial entre Yambio e Wau.

Por lá tambem passou o Karamojo Bell, nas suas “andanças de caçador de elefantes”.

Enfim, conheci uma grande parte do Sudâo, aquilo que me alcançou conhecer durante oito anos que passei naquele país.

Atravessei o Nilo e fui ver a Cidade de Ondurman, que está situada do outro lado da ponte que sai de Khartoum, onde os dois Nilos se encontram. O Azul que vêm de Etiópia e o Branco que vem lá do Sul, do Uganda

O mercado de Ondurman é o maior do Sudâo e o mais interessante, e tem uma grande variada de de mercadorias para mostrar aos visitantes. Candelabros esculpidos em marfim e pau-preto por artesãos do mercado, joalheiros e prateiros fabricam todas as variedades de joalharia na parte da frente das suas lojas. Todo este conjunto faz desse lugar um mercado vivo e apressado. A melhor ocasião para visitar esta babilónia de mercadores, é às sextas feiras de manhã.

Em Ondurman, visitei a casa do famoso, Mahdi, o escolhido de Deus, que pôs em cheque aos soldados britânicos do Sudâo Anglo-Egipcio, acabando com a vida do General Gordon e toda a sua guarniçâo.

Agora um pouco de história, para poder entender a ideosincracia destes povos habitantes do Sudâo.

Mohammed Ahmed (1844-85) encabeçou a rebeliâo do Sudâo contra a penetraçâo colonial britânica, que tinha começado desde o Egipto, em 1881, como “guerra santa” do Islâo.

Sitiou e capturou Khartoum em 1885, dando morte ao general Gordon como o mencionei atrás. Os derviches, seguidores do Mahdi, chegaram a controlar todo o Sudâo, excepto os portos de do Mar Vermelho; os britânicos nâo recuperaram o país até 1898, quando Kitchener, derrotou o sucessor do Mahadi, (o califa Abdullah el Taashi), e ordenou destruir, queimar e desaparecer todos os vestígios da tumba e do corpo do Mahdi, como símbolo da sua vingança.

Com os problemas que existem hoje com os islamistas, pensei que seria apropriado dizer que o título de Mahdi, que significa “bem dirigido” e que designa entre os mulsulmanos, a um Messias esperado, para impor ao mundo a doutrina do Islâo, a justiça e a fraternidade.

Tal crença, alheia à doutrina de Mahommed, é negada pelos mulsulmanos “Sunnies”, mas ao mesmo tempo ocupa um dogma importante entre os “Chiitas”, que o identificam como “o iman oculto”, membro da familia de Ali.

Em momentos de crise, esta crença foi aproveitada algumas vezes, por fanáticos com ambiçâo de poder, para obter apoio das massas ferventes e religiosas. Assim, por exemplo, Ubaid Allah, a princípios do seculo X, (o fundador da dinastía Fatimi); ou o Ibn Tumart no século XII (fundador da dinastia Almohade), usaram esta estratégia de fazer-se chamar o Mahdi, o o Escolhido de Deus, para levar a água ao seu moinho, e assim conseguir o poder que tanto ambicionavam.

O Mahdi foi sepultado numa mesquita que tinha um domo de prata, situada em Ondurman. Esta foi completamente destruida por Kitchener em 1898, e o corpo do Mahdi foi queimado e a suas cinzas atiradas ao Rio Nilo. Em 1947, o filho do Mahdi, fez com que se reconstruisse a mesquita e tambem a tumba, e nâo é de surpreender que esteja agora vedada a extrangeiros, mas pode-se ver por fora.

A casa do Mahdi, foi contruida com adobes, em 1887, é é agora um museu. Contem relíquias da batalha de Mahdiyya, indluindo armas, bandeiras e algumas cotas de malha, usadas naquela batalha. Há uma colecçâo interessante de fotografias, dessa época da revolta e da subsequente ocupaçâo pelos britànicos.

Ondurman, foi o centro do comércio de escravos que vinham do Sul. Aí se comerciava com a gente, que acabavam por ser embarcados para a provincia arábica e outros lugares do Norte.

Éra fascinante percorrer a pé as ruas de Ondurman, sentir os cheiros de comida adoçicada, e de espécies que eram desconhecidas para mim; na minha mente, parecia que ainda podia ouvir os pregôes dos vendedores de escravos a anunciar os negros mais fortes e as negras mais sensuais. Entre eles havia os negros Acholis do Sul e mais dóceis, as mulheres Dinkas, altas e com corpos como que tivessem sido modeladas em cerâmida de Sévres, com a pele lisa e tersa, que faziam sonhar as ”mil e uma noites”, que eram vendidas por um punhado de dinares, ou trocadas por ricas mercadorias, entre elas a prata da Núbia, as pérolas do Mar Vermelho; um carregamento de goma-arábica, ou uns quantos sacos de café de de Etiópia, eram tambem moeda de troque, por estes fortes escravos e belas escravas negras.

Oops, deixei-me levar pela imaginaçâo, que nâo está nada fora da antiga realidade.

E se aprofundamos muito, com uns bons dólares, ainda se pode comprar hoje, que estamos no Século XXI, uma escrava negra do Sul. Isto foi publicado pelas Naçôes Unidas há pouco tempo.

Mas voltando à realidade, continuámos a percorrer as diversas ruas de Ondurman.

Entrar em lojas onde ofereciam ao transeunte as coisas mais raras que havia em esse país. Velhas pulseiras de prata pura, da Nubia; sandálias de pele de leopardo, goma-arábica, café arábico, forte e negro.

Havia uma infinidade de joalharias, que estavam abertas até altas horas da noite.

O mercado de camelos situado a dois kilómetros ao Norte do Souq ou mercado, de Ondurman repleto de dromedários vindos das províncias do Oeste e Oriente do Sudâo, era um fervilhar de gente e de bestas.

Comerciantes e tratantes de todo o Sudâo, exibiam os seus animais. Viam-se árabes da Arábia Saudita, que podíamos reconhecer pelas suas indumentárias, discutindo e comprando camelos que mais tarde seriam embarcados para os seus país, tambem gente Yemenita tratando de fechar algum negócio com os vendedores dos dromedários.

Khartoum, é uma das três irmâs, como chamou alguem às cidades de Ondurman, Khartoum Norte e o Khartoum propriamente dito, que hoje estâo unificadas, pela expansâo da cidade, que teve que construir para fazer frente à expansào demográfica do lugar.

Está situada na confluencia dos dois Nilos: o Nilo Branco, que vem do Sul e o Azul que vem do Este, da Etiópia.

A cidade tem uma história relativamente curta. Em 1821 foi usada como posto militar a que deram o nome de Khartoum, que em árabe significa tromba de elefante, pela similitude que há, de uma pequena Ilha na convergência dos dois rios e, o apendice dos elefantes.

Khartoum, cresceu rápidamente durante o explendor do comércio de escravos, que foi entre os anos 1825 e 1880. Em 1834 fizeram dela a capital do Sudâo, e uma grande quantidade de exploradores da Europa, fizeram desta cidade a sua base, para as suas expediçôes africanas.

Entre safaris, tive a sorte de visitar a parte “faraónica” do Sudâo. Sim porque o Sudâo, em algum tempo e durante a época dos faraós, foi um lugar importante na vida do Egipto faraónico. Nele se construiram grandes monumentos e pirâmides, que marcaram a sua presença nesta regiâo.

O Museu Nacional, contem artefactos e antiguidades de varios períodos da pré-historia e história do Sudâo, incluido objectos de vidro, cerâmica, estátuas e figuras do antigo reino de Cush.

O período da Nubia Cristiana, está muito bem representado, com frescos e murais obtidos de igrejas en ruinas, datados desde o oitavo até ao decimo quinto Século.

No jardim do Museu, reconstruiram-se dois templos, que foram salvos, quando as águas do Lago Nasser ou seja a barragem de Assuâo, começaram a subirem, perto de uma das cidades que faz fronteira com o Egipto, que é, Abu-Simbel.

Estes templos egípcios de Buhen e Semma, foram originalmente mandados construir pela Rainha Hatshepsut e pelo Faraó Tuthmosis III respectivamente. Era de notar que sobre os templos contruiram uma estructura com lámina de zinco corrugada ou ondulada, para protegê-los da humidade durante a estaçâo das chuvas. No princípio segundo me informou um dos guias do museu, pensava-se que no final das chuvas se retiraria por um sistema mecânico, mas isso nunca aconteceu e naquele tempo já se encontrava oxidada, o que fazia impossível a sua mobilidade.

Depois dos egipcios, estableceram-se nesse lugar, os Cristâos Coptos, que duraram até que começou a invasâo árabe do Sudâo.

Nâo tive muito tempo para conhecer mais, como me gostaria ter conhecido, e a razâo foi que depois de seis meses de caça constante, em que a maioria do tempo a passava na floresta equatorial, ou seja a floresta densa e fechada, caminhando uma media de vinte kilómetros diáriamente, eu que naquele tempo, era um pau de virar tripas, perdia cerca de oito kilos cada temporada de caça e a única coisa que me apetecia, era voar até Paris, onde no famoso Instituto Pasteur, me faziam um teste para ver se nâo tinha “pescado” alguma das raras doenças que existiam naquelas florestas.

Sim porque esses lugares estavam cheios de doença do sono ou tripanosomíazes, de duas microfilárias que eram a Loa-Loa e a Bancroftis e, algumas mais.

Depois de um ano ter “pescado” a microfilária Bancroftis, que é muito desagradável, pois pela noite quando um necessita dormir, parece que tem “cucarachas” a caminhar pela pele, somente no Instituto Pasteur descobriram o que é que eu tinha depois de fazerem-me varias analizes; a doença era rara, mas fácil de curar, pois com uma caixa de Neotizine, que me deram, consegui acabar com estes desagradáveis bichinhos.

Depois de estar “checado”, desinfectado, etc. etc., entâo voava a Madrid, que era onde tive casa durante quase 15 anos, e começava por recuperar-me das “mal passadas” que me dava no Sudâo, e ponha-me a comer os bons cosidos Madrilenos, o presunto de Jabugo, os bons Chuletones de Ávila, os Callos à la Madrilena, e assim ia repondo o peso que tinha perdido durante as caminhadas que dava atrás dos elefantes, bongos e mais animais.

Como a temporada de caça terminava em Junho, entâo nâo podia faltar, ir até à Ilha de Palma de Maiorca, onde algumas vezes me instalava num iate que um bom amigo e, quase irmâo, me emprestava, para que me fosse repondo dos pesados dias que passava no Sudâo. Iate de 14 metros só para mim, boa comida e melhor bebida e,... Entâo sim, isso era vida.

Quando havia alguma cancelaçâo de algum safari, o que era raro, alguma vez ia a Nairobi e, aí descansava e tentava repor-me fisicamente durante os dias que tinha livres.

Procurava uma namorada “temporal”, que me fizesses esquecer tanta floresta e, que me fizese sentir animicamente bem, ainda que sempre regressava à floresta, pois era onde mais me gostava caçar.

A savana, era bonita, mas a floresta era um lugar onde havia mais desafios à habilidade de um caçador, e muitas vezes à integridade física de um, pois aos elefantes atiravamos-lhes a distancias tâo pequenas que cada dia arriscávamos a pele. Muitas vezes quando nos aproximávamos aos elefantes, tinhamos que baixar-nos para poder ver as pontas e às vezes estavam tâo perto que o coraçâo se nos fazia pequeno e quase nos saltava pela boca. Por isso a razâo de eu usar uma arma de dois canos paralelos, calibre 577.

Muitas vezes me perguntavam porquê usava uma arma tâo pesada? e a minha resposta foi sempre a mesma: “porque nâo há “bazucas” de dois canos que eu possa usar”, - pois o primeiro tiro era sempre do cliente, e muitos, ainda que atiravam tâo perto, às vezes nâo acertavam no lugar que deviam e, entâo tínha que actuar o guia, ou seja eu, para que nâo houvesse problemas maiores.

Muitos sustos, apanhei nessses lugares, mas creio que a adrenalina que me provocavam essas situaçôes, eram como uma droga que corria pelas minhas veias, e isso fazia-me com que eu regressasse sempre a caçar a essas floresta de Yambio.

O meu acampamento, estava estrategicamente situado, na parte mais ao Sul da Provincia de Equatória. Para chegar a ele tínhamos que tomar uma picada que há muitos anos tinha sido feita por uma companhia algodoeira, que tinha a sua base em Yambio, a qual tinha construido tambem nesse lugar, uma fábrica de tecidos.

Havia um chefe negro, que se chamava James Diko, e esse foi o nome que demos ao meu acampamento, pois estávamos relativamente perto da casa dele.

Aí era a terra dos grandes elefantes, que vinham do Zaire (hoje Congo), a comer a grande quantidade de mangas que havia do lado do Sudâo. Eram florestas imensas dessa saborosa fruta. Havia mangas de todas as qualidades e formas. As muito grandes como as da India, as amarelinhas pequenas com muito fio, mas mais saborosas e, habia umas de tamanho medio que tinham uma cor entre laranja, vermelho e amarelo, que eram as minhas perferidas.

Nos meses de Marzo, Abril e Maio, os elefantes vinham ao Sudâo a dar-se um festim com estes frutos, e era aí que nós aproveitávamos, para conseguir os melhores trofeus de elefante.

Aí, nesse lugar, levei alguns clientes, que conseguiram caçar elefantes, cujas pontas ultrapassaram as 45,36 quilogramas por ponta e, alguns com mais de 2,60 metros de comprimento. Eram verdadeiros mastodontes, no referente ao marfim que tinham, nâo assim no corpo, que comparados com os grandes paquidermes de Angola, faziam-nos ver como elefantes anôes.

Victor “Hunter”

RETALHOS DAS MINHAS MEMÓRIAS – MOÇAMBIQUE 6

...Nesse ano eu tinha estado em Paris, a tentar promover mais safaris com o nosso agente, o Conde de la Rochefaucaux, porque geralmente os franceses iam caçar na África Francófona, ou sejam as colonias de França, como a Costa de Marfim, Camarâo, Républica Centro Africana, Tchad, que era onde havia mais animais para caçar.
Falei com alguns clientes que ele me apresentou e nesse ano recebemos 6 clientes franceses, todo um record, porque era muito raro que viessem a Moçambique.
Moçambique era um país para fazer safaris de “general bag”, um safari com as espécies mais representativas, mas nâo havia, à parte das Inhalas ou Nyalas, um animal especial que pudéssemos oferecer, como por exemplo, os grandes elefantes da República Centro Africana, os Elands Gigantes ou os Bongos.
Faziamos safaris, divertidos, quase sempre atirávamos do carro e era um safari cómodo, para gente que gostasse de dar muitos tiros, e que gostasse de caminhar pouco, pelo menos nas áreas que eu caçava.
Nào se faziam safaris especializados, mas a gente gostava e, graças a Deus estávamos sempre cheios. Eu fazia uma média de 160 dias de safaris todos os anos, e às vezes mais.
O Conde de la Rochefaucaux, mandou-me uma carta, que dizia que um primo seu. O Duque de Estissac, viria a caçar comigo em Agosto, e que o que queria era matar búfalos, aparte de outras espécies e, que “nunca, por razâo nenhuma, dobrasse um tiro ao Sr. Duque”, pois o homem era um caçador que queria ter a certeza que era ele que matava os animais.


(Foto do Duque com um bom Kudo)

Eu nunca fui muito de dobrar tiros aos meus clientes, era raro, somente quando mo pediam, às vezes com os elefantes, ou com algum leâo “teimoso e de mau humor”.
Os búfalos em Moçambique, em todos os lugares onde os caçávamos, encontrávamos grandes manadas, ou manadas de razoàvel tamanho. Muitas vezes aproximávamo-nos com o carro e se o cliente queria, atirava de cima do jeep, ou a maioria das vezes, eu fazia com que eles se baixassem e fazíamos uma aproximaçâo tentando atirar o mais perto possível do animal. Assim o tiro era mais efectivo e havia menos possibilidade de errar os pontos vitais, pois quase sempre o cliente atirava com calibres 416 a 458 e assim nâo havia caída do projéctil, que nestes calibres é bastante grande a distancias superiores aos 100 metros.
Para que o Sr. Duque de Estissac pudesse ver o que era uma verdadeira caçada aos búfalos, resolvi começar o safari no Catulene, onde nâo havia grandes manadas, mas sim manadas pequenas de uns 50 a 100 animais, mas que pelas condiçôes da área, eram mais difíceis de caçar.
Como estes búfalos eram obrigados a passar sede todo o dia, porque as margens do rio Pompué estavam habitadas nas duas margens por indígenas locais, os búfalos, a meu ver, andavam sempre sedentos, até altas horas da noite que era quando podiam vir a beber sem que os detectassem.
Uma manhâ, saímos ao longo do rio, para ver se encontrávamos algumas pégadas, e nâo demorou muito que víssemos o rasto de uma pequena manda, talvez uns 50 bufalos.
Começámos a segui-la e depois de caminhar perto de uma hora, vimos ao longe, entre a floresta aberta, a manada que ia caminhando devagar e comendo. Escolhemos o vento e começámos a aproximar-nos devagar.
Eu notei que havia alguns búfalos que estavam alerta, e o que fiz foi baixar-me e começar a arrastar-me o mais devagar possível para chegar o mais perto deles posível.
Lembro-me que estava um calor dos diabos e arrantando-nos no capim que havia no Catulene, que era um capim que nâo crescia mais de 50 cms, mas que tinha uma espécie de sementes pequenas que se nos metiam até nos olhos, o que era uma tortura.
Aqui quero fazer uma observaçâo. Cada vez que íamos caçar um animal como bufalos e elefantes, o Fombe, o meu pisteiro, secretário, ama e diria segundo pai, sempre levava uma das minhas armas, que usava com bastante precisâo, em caso de que eu falhasse ou me passasse alguma coisa assim parecida. Fombe era esquerdo, canhoto até mais nâo poder, e como eu sou direito, fazíamos uma equipe muito boa porque nos cobríamos um ao outro perfeitamente. Se ele fosse ao meu lado direito, nâo havia ângulo que nâo estivesse cuberto.
Mas continuando com a caçada do Sr. Duque de Estissac. Conseguimos chegar-nos até uns 70 metros donde estavam os búfalos. Cons os binóculos vi o que me pareceu melhor, ainda que nâo fosse nenhuma maravilha e disse-lhge ao Duque que lhe atirasse. Soou o tiro da 375 que ele usava e, vi que os búfalos arrancaram a correr. A mim pareceu-me que lhe tinha dado um tiro ligeiramente atrasado, mas logo veríamos.
Começámos a seguir a manada tendo o Fombe , o Sande e o Joâo, os “messires” a que eu de brincadeira lhe dizia, “engenheiros do mato”, feito uma linha recta para ver se víamos o rasto que tivesse sangue.
Encontrámos o rasto do nosso búfalo, e vimos que ele tinha abandonado a manada para dirigir-se a uma rio seco que eu sabia que existia mais adeante.
Para que nâo houvesse problemas pusemos o Senhor Duque no meio, entre Fombe e eu. Íamos a uma distância dele de uns 5 metros. Ele ia no rasto guiado pelo Sande e eu ao seu lado esquerdo e Fombe ao lado direito. Eu levava a minha 416 John Rigby e o fombe uma velha 375 Winchester. Chegou um momento que estávamos a caminhar numa floresta aberta mas com bastantes árvores o que era bastante incómodo para ver bem. Depois de caminhar um pouco mais, estava um “morro de muchen” bastante grande com alguma vegetaçâo, e Fombe avisou. Cuidado que pode estar atrás do morro.
Eu disse ao Senhor Duque que se preparasse porque aquele búfalo nos poderia carregar.
Mal acabava de dizer-lhe, ouvi o típico muuu curto do búfalo quando carga e, vi-o arrancar direito a nós, bom a nós nâo, ao Duque que ia no meio e no rasto do animal.
Vi o Senhor Duque levantar a arma e disparar, mas nada aconteceu, o búfalo continuou direito a ele como um comboio desenfreado.
Vi o Senho Duque desaparecer da minha visâo e eu atirei ao mesmo tempo que o Fombe. Parecia que lhe tinham posto uma parede na frente porque se encolheu e caiu a menos de 10 metros donde estávamos nós.
Os meu “messires” que nâo eram nada discretos, começaram a rir-se e a fazer troça do senhor Duque, porque segundo eles o aristocráta corria como coelho para por-se a salvo, nâo se importando que a corôa Ducal se lhe tivesse caído.

Tive que os pôr em paz, e fui com o Duque dizer-lhe que às vezes passava isso, que desculpasse ter que atirar eu, mas era um caso de força maior. Já caçaríamos outro que nâo se preocupasse.
Esteve vários dias, até que veio comigo e me disse: Desculpa pela pretensâo que eu tinha, mas compreendo que às vezes o guia tem que ajudar.
(foto do Duque com o segundo bufalo que matámos perto de uma povoaçâo do Catulena).
Eu fiz que era coisa sem importancia, que já caçaríamos outro e continuámos o Safari do Duque de Estissac, que caçou bastantes bons trofeus. Quando fomos ao elefante, disse-me: “ se vez que nâo cai, atira tu tambem”.
Nâo foi necessário, ele deu-lhe um bom tiro.
Victor “Hunter

quinta-feira, setembro 20, 2007

RETALHOS DAS MINHAS MEMÓRIAS – MOÇAMBIQUE 5

Muito se falou dos leões do Kahalari, dos leões de Angola.
Eu cacei ambos, e a única coisa que notei a diferença, não foi no tamanho, mas sim na forma de caçar.
Em Moçambique um necessitava de maior arte para conseguir um bom leões. Caçava-se quase sempre de noite e raramente encontrávamos um de dia, a não ser no Kanga N’Thole do Araujo, na coutada 1 porque eram leões que muitas vezes vinham da Gorongosa.
Caçar um leão na Macossa, era outra coisa... tínhamos que arrastar um saco de tripas de búfalo ou de zebra por quilómetros, para “deixar o rasto” de um animal ferido, para atrair o leão à isca.
Fazíamos um posto, que muitas vezes tapava todo o Toyota, e aí esperávamos o leão.
Tinha eu, um funil de uns 70 cms de comprido, e muito apertado com uma boca, feita de modo que uma pessoa pudesse aplicar os lábios dentro dela e imitar o rugido do leão. O funil era posto dentro de uma das latas de petróleo de 20 litros, para que funcionasse como amplificador, e no fundo da lata púnhamos água a um altura de 10 cms, mais ou menos, para evitar a vibração da lata.
Havia muitos que o sabiam fazer, mas bem bem, conheci a dois: um era o Fombe, claro, ele sabia tudo, e o Japão o ajudante do Simões. Vi outros mas não lhe chegavam nem aos calcanhares.
Na Macossa, na área do monte M’Panda, ou em outro lugar que se chamava Mazi Machena, que era uma lagoa no meio do mato, onde não havia mais água do que aquela, pois tinha uma nascente, cacei muitos leões, e quando digo muitos, foram mais de 30 leões naquele lugar.
Seguidamente, somente vou por algumas fotografias, dos leões caçados naquelas terras da Macossa, que nâo tinham nada que invejar aos célebres leões do Kalahari.
Uns foram mais fáceis de caçar outros não, tive que andar noite atrás de noite para poder conseguir encontrá-los.
Somente com muita perseverança, se conseguia um bom leão da Macossa. A sorte influia, mas conseguíamos muito melhores resultados se trabalhássemos para que as coisas sucederam.
O Seguinte leão foi morto por um bom amigo de Barcelona o meu amigo António Farras. Com este leão ganhei uma aposta de um jantar num lugar especial de Barcelona, que aqui nesta página nâo poderia contar, porque nâo é proprio para pessoas como nós, que somos pessoas decentes.


(Na foto: estou eu e António Farras)
Esta aposta foi feita com o António e com o Pepe na foto que segue.


Foram dois leões no mesmo safari, e o mais divertido foi a dedicatória que tem esta fotografia.
“A los “machendes” de Victor”, porque faltou pouco para que este leão nos matabichasse-jejeje, mas isso sâo histórias de caçadores, que muitas vezes são verdadeiras “cunhepas” (em sena- mentiras).
E como dizia o avô: que 3 caçadores e três pescadores, faziam meia dúzia de mentirosos...













Este leão foi caçado na base do Monte M`Panda, pela senhora e grande amiga Loli Zunzunegui, de Madrid.
Era um belo leâo de juba entre preta e côr de laranja.
Esta senhora era uma desportista fantástica, à parte de caçar gostava de pescar tambem. Eu acompanhei-a um par de vezes à Santa Carolina, onde pescámos um marlim, barracudas e muitas diferentes espécies.
No seus safaris conseguiu uma boa colecção de troféus entre elefantes, leopardos, leões e Búfalos.
Havia mulheres caçadoras fantásticas, que até hoje eu admiro pela valentia que mostravam em momentos difíceis nas nossas savanas e florestas.

Seguimos com alguns leões que conseguimos nas terras da Macossa, Atrás da Serra da Gorongosa.

Este é outro leão do Mazi Machena, que conseguimos depois de uma noite de estar esperando-os.



O Sr. Mata de Barcelona, com o Japão que naquela noite me acompanhou, porque o Fombe estava doente. Um bruto, que nos quis carregar, mas não lhe demos chance.


Este leão era do meu cliente e amigo Rafael. Lembro-me que nessa noite o frio era tão grande que entre os dois nos bebemos uma garrafa de cognac, pois não havia forma de aquecer-nos.
Terminámos com o leão, gelados e quase a ponto desistir, mas caiu à última hora.
Isto foi somente para dizer-lhes que Moçambique também tinha grandes leões que não ficavam atrás dos melhores países de África.
O que passou é que devido às exigências do nosso governo, nunca os cineastas lhe fizeram a propaganda que faziam ao Kenia e, à outros países.
Também porque nos tandos, ainda que houvessem leões, nâo havia a facilidade de os ver como no Serengueti, o no Massai Mara, e também no Grande Deserto do Kahalari.
E na Macossa, quase impossível de ver um leão de dia. Era floresta aberta e não havia tandos ou grandes planícies.

Victor “Hunter”


RETALHOS DAS MINHAS MEMORIAS – MOÇAMBIQUE 4

Este capítulo devia chamar-se: COMO AMARRAR UM LEOPARDO...Havia um senhor em Madrid, cujo nome era José Maria Sanchiz Sancho, um tipo alto fornido, que naquele tempo teria uns 75 anos, que era um homem importantíssimo. Diziam que ele era das poucas pessoas que podia por um braço sobre Franco, pela amizade que os unia. Era tio do Marquês de Villaverde, e diziam que era administrador de muitas coisas que tinha a família Franco. Tinha uma “finca de perdizes” que era uma maravilha, onde o General costumava ir dar os seus tiros. Era um homem poderoso, e podia mover muitos cordéis na “política” daquele tempo. Diziam que podia “fazer” e “desfazer” ministros. Pois bem este senhor, um dia que eu estava em Madrid a promover os safaris, fez com que a sua secretária me chamasse para concretizar uma entrevista, queria ir de safari três semanas e queria falar comigo. Quando entrei no seu escritório, da Calle Alcalá, a sua secretária fez-me passar e aí conheci a este senhor que veio a ser um grande amigo e que com o tempo, até me “autorizou” que o chamasse Tio Pepe… Chegou a Moçambique, e daí fomos para o acampamento da Mazamba; o animal que ele tinha mais interesse era um bom leopardo, pois tinha estado em África, com a Safrique, e não tinha conseguido matar nem leão nem leopardo. Começámos o safari, e começámos a obter os troféus, pouco a pouco. Não era um grande atirador, mas tinha muito entusiasmo pela caça e isso era importante. Matámos búfalos, todos os antílopes e o safari ia decorrendo, muito bem. Não podia caminhar muito e por isso esquecemo-nos dos elefantes.

Era um comilão de alto lá com ele. Em Madrid tinha-me perguntado o que é que lhe íamos dar de comer, quando eu lhe disse, não lhe gostou nada a minha proposta. Queria comida espanhola, então eu disse-lhe: “Oiça, a mim disseram-me que o senhor é conselheiro de Ibéria e, que lhe dão bilhetes grátis e não paga nada na Ibéria. Porque não compra o que goste, manda fazer uma caixa e manda para Moçambique e assim quando lá chegue tem tudo o que necessita.”? Pensou um pouco e disse-me: Sabes que eres un sin vergüenza, pero simpático?E ao outro dia mandou arranjar tudo para que em Moçambique não lhe faltasse nada. Nâo mandou uma caixa, mas sim três que chegaram à Allen Wack, que eu mandei levar depois para o acampamento, e assim o homem andava contente, e comia do que gostava. Fez uma boa equipa com o meu cozinheiro Vilarique, pois ele ensinava-lhe o que queria que ele fizesse. No final do safari até o queria levar para Espanha. Para caçar o leopardo, fomos para o acampamento do Botão que estava situado, onde termina a floresta de Inhamitanga e começa o tando do Botão. Este acampamento somente o usava, quando queria vi a caçar algum leopardo, ou suni, que havia por milhares. Fomos ao tando, matámos um búfalo, para usar as patas traseiras como isca para o leopardo. Pusemos várias iscas e, pelas manhãs sempre íamos ver se algum leopardo tinha comido. Um dia encontrámos uma das iscas comidas e preparámos tudo para construir um lugar tapado, ou posto, onde pudéssemos por uma cadeira e esperar aí o leopardo, sem que ele nos visse ou cheirasse. No acampamento eu tinha umas caixas de cartão, nas quais desenhei um leopardo, para que o Tio Pepe, assim já o chamava eu, pudesse treinar a atirar com a luz do farolim. Nesse dia à noite, pusemos as caixas, e pedi-lhe que quando eu acendesse o farolim, que ele atirasse o mais rápido possível ao “leopardo”.Tentámos três vezes e nada. Ele não via bem de noite e não lhe dava. Mandei ir buscar uma caçadeira que eu tinha de 5 tiros automática, e depois de carregá-la com cartuchos SGS, e de pintar com giz a “cinta” da espingarda, pedi-lhe que atirasse, e ele sim dos 9 chumbos deu-lhe com 6 e alguns em lugar onde poderia ter morto o leopardo. O problema era o tempo que demorava a atirar. O leopardo não esperaria tanto. ...enquanto ele e o cozinheiro faziam o almoço eu disse-lhe que iria ver se tinha comido algum leopardo mais. O que fizemos foi ir à isca onde tinha comido o leopardo e preparar uma forma para amarrar o gatinho, para que lhe dera tempo ao Tio Pepe, de atirar.

Usámos um cabo de aço maleável, que conseguiam os “furtivos” dos travões dos comboios, e amarrámos o laço do lado contrário de donde o leopardo entraria a comer. O leopardo ao passar por um emaranhado de ramas estratégica mente postas, para que tivesse que entrar por o lugar preciso, faríamos que o gatinho estivesse a comer com o laço à volta do pescoço e sem senti-lo, somente quando saltasse o laço apertaria e daria tempo ao Tio Pepe de atirar. A armadilha estava pronta para que o leopardo entrasse e pelo menos ficasse amarrado o tempo necessário para que o Tio Pepe, pudesse atirar. O Fombe tinha esfregado um pouco de sal na carne do búfalo, segundo o que aprendi dele, era que o leopardo nunca tinha provado sal e ao comer a carne, “condimentada” sempre regressava e quando comia estava tranquilo. Seria verdade? Nunca pude perguntar a nenhum leopardo... Regressámos ao acampamento e esperámos pela tarde. Às 5 da tarde já estávamos dentro do posto sentados, o Tio Pepe, o Fombe y eu. Ao lado do Tio Pepe, apoiada num dos ramos, estava a caçadeira calibre 12 carregada com 5 tiros SGS, de 9 chumbos de 9 mm de diâmetro. A uma distância tâo curta eram sumamente efectivos e mortais. Algumas vezes na minha vida de caçador, tive que ir à procura de leopardos feridos pelos meus clientes. Nunca usei uma espingarda de bala, sempre levei aquela velha automática marca Savage de 5 tiros, que funcionava de maravilha para estas ocasiões e que nunca falhou. Era somente para o que a tinha, porque como caçadeira, sempre gostei de usar uma de doble cano paralela, que ainda hoje conservo, feita por Victor Sarrasqueta, que é uma jóia. Esperámos pelo leopardo e perto das 8 da noite, o leopardo entrou e começou a comer, pois podia ouvir-se perfeitamente. Com os binóculos podia ver perfeitamente a silhueta do animal. Preparei o farolim e disse ao Tio Pepe que se preparara. Quando acendi a luz lá estava o leopardo. Eu até podia ver o laço à volta do pescoço. O Tio Pepe demorou um pouco e disparou, o leopardo saltou e vi como ficava amarrado o laço, e ele lutou um momento para soltar-se. Disse-lhe ao Tio, “atira outra vez” e ele atirou e o leopardo caiu fulminado porque alguns chumbos lhe tinham dado na cabeça.

Dei o farolim ao Tio Pepe e tirei-lhe a caçadeira da mão, para que ele ficasse a iluminar-nos enquanto íamos nós a ver se estava morto. Isto foi somente uma forma para que ele ficasse onde estava. Fombe e eu saímos e aproximámo-nos lentamente do leopardo, até ver se estava bem morto. Quando lhe toquei com a ponta da espingarda, vi que nâo se movia. Fombe pôs-se de costas para o Tio Pepe que nos continuava iluminando, e sacou-lhe o cabo, que estava bem apertado, para que ele não o visse. O Toyota chegou, pois tinham ouvido os dois tiros e eu tinha-os mandado esperar longe daí. Então já o Tio Pepe deixou o farolim e veio juntar-se a nós. Felicitámo-lo pelos bons tiros que tinha dado. Ficou contentíssimo o velho Tio Pepe. Isto até parece uma história para os miúdos dormirem, mas sim, assim foi como amarrámos um leopardo, para que um velho e poderoso amigo, pudesse regressar a Madrid. Por ele consegui muitos clientes, para que viessem caçar comigo em Moçambique.

Victor “Hunter”