terça-feira, setembro 25, 2007

RETALHOS DAS MINHAS MEMÓRIAS – MOÇAMBIQUE 6

...Nesse ano eu tinha estado em Paris, a tentar promover mais safaris com o nosso agente, o Conde de la Rochefaucaux, porque geralmente os franceses iam caçar na África Francófona, ou sejam as colonias de França, como a Costa de Marfim, Camarâo, Républica Centro Africana, Tchad, que era onde havia mais animais para caçar.
Falei com alguns clientes que ele me apresentou e nesse ano recebemos 6 clientes franceses, todo um record, porque era muito raro que viessem a Moçambique.
Moçambique era um país para fazer safaris de “general bag”, um safari com as espécies mais representativas, mas nâo havia, à parte das Inhalas ou Nyalas, um animal especial que pudéssemos oferecer, como por exemplo, os grandes elefantes da República Centro Africana, os Elands Gigantes ou os Bongos.
Faziamos safaris, divertidos, quase sempre atirávamos do carro e era um safari cómodo, para gente que gostasse de dar muitos tiros, e que gostasse de caminhar pouco, pelo menos nas áreas que eu caçava.
Nào se faziam safaris especializados, mas a gente gostava e, graças a Deus estávamos sempre cheios. Eu fazia uma média de 160 dias de safaris todos os anos, e às vezes mais.
O Conde de la Rochefaucaux, mandou-me uma carta, que dizia que um primo seu. O Duque de Estissac, viria a caçar comigo em Agosto, e que o que queria era matar búfalos, aparte de outras espécies e, que “nunca, por razâo nenhuma, dobrasse um tiro ao Sr. Duque”, pois o homem era um caçador que queria ter a certeza que era ele que matava os animais.


(Foto do Duque com um bom Kudo)

Eu nunca fui muito de dobrar tiros aos meus clientes, era raro, somente quando mo pediam, às vezes com os elefantes, ou com algum leâo “teimoso e de mau humor”.
Os búfalos em Moçambique, em todos os lugares onde os caçávamos, encontrávamos grandes manadas, ou manadas de razoàvel tamanho. Muitas vezes aproximávamo-nos com o carro e se o cliente queria, atirava de cima do jeep, ou a maioria das vezes, eu fazia com que eles se baixassem e fazíamos uma aproximaçâo tentando atirar o mais perto possível do animal. Assim o tiro era mais efectivo e havia menos possibilidade de errar os pontos vitais, pois quase sempre o cliente atirava com calibres 416 a 458 e assim nâo havia caída do projéctil, que nestes calibres é bastante grande a distancias superiores aos 100 metros.
Para que o Sr. Duque de Estissac pudesse ver o que era uma verdadeira caçada aos búfalos, resolvi começar o safari no Catulene, onde nâo havia grandes manadas, mas sim manadas pequenas de uns 50 a 100 animais, mas que pelas condiçôes da área, eram mais difíceis de caçar.
Como estes búfalos eram obrigados a passar sede todo o dia, porque as margens do rio Pompué estavam habitadas nas duas margens por indígenas locais, os búfalos, a meu ver, andavam sempre sedentos, até altas horas da noite que era quando podiam vir a beber sem que os detectassem.
Uma manhâ, saímos ao longo do rio, para ver se encontrávamos algumas pégadas, e nâo demorou muito que víssemos o rasto de uma pequena manda, talvez uns 50 bufalos.
Começámos a segui-la e depois de caminhar perto de uma hora, vimos ao longe, entre a floresta aberta, a manada que ia caminhando devagar e comendo. Escolhemos o vento e começámos a aproximar-nos devagar.
Eu notei que havia alguns búfalos que estavam alerta, e o que fiz foi baixar-me e começar a arrastar-me o mais devagar possível para chegar o mais perto deles posível.
Lembro-me que estava um calor dos diabos e arrantando-nos no capim que havia no Catulene, que era um capim que nâo crescia mais de 50 cms, mas que tinha uma espécie de sementes pequenas que se nos metiam até nos olhos, o que era uma tortura.
Aqui quero fazer uma observaçâo. Cada vez que íamos caçar um animal como bufalos e elefantes, o Fombe, o meu pisteiro, secretário, ama e diria segundo pai, sempre levava uma das minhas armas, que usava com bastante precisâo, em caso de que eu falhasse ou me passasse alguma coisa assim parecida. Fombe era esquerdo, canhoto até mais nâo poder, e como eu sou direito, fazíamos uma equipe muito boa porque nos cobríamos um ao outro perfeitamente. Se ele fosse ao meu lado direito, nâo havia ângulo que nâo estivesse cuberto.
Mas continuando com a caçada do Sr. Duque de Estissac. Conseguimos chegar-nos até uns 70 metros donde estavam os búfalos. Cons os binóculos vi o que me pareceu melhor, ainda que nâo fosse nenhuma maravilha e disse-lhge ao Duque que lhe atirasse. Soou o tiro da 375 que ele usava e, vi que os búfalos arrancaram a correr. A mim pareceu-me que lhe tinha dado um tiro ligeiramente atrasado, mas logo veríamos.
Começámos a seguir a manada tendo o Fombe , o Sande e o Joâo, os “messires” a que eu de brincadeira lhe dizia, “engenheiros do mato”, feito uma linha recta para ver se víamos o rasto que tivesse sangue.
Encontrámos o rasto do nosso búfalo, e vimos que ele tinha abandonado a manada para dirigir-se a uma rio seco que eu sabia que existia mais adeante.
Para que nâo houvesse problemas pusemos o Senhor Duque no meio, entre Fombe e eu. Íamos a uma distância dele de uns 5 metros. Ele ia no rasto guiado pelo Sande e eu ao seu lado esquerdo e Fombe ao lado direito. Eu levava a minha 416 John Rigby e o fombe uma velha 375 Winchester. Chegou um momento que estávamos a caminhar numa floresta aberta mas com bastantes árvores o que era bastante incómodo para ver bem. Depois de caminhar um pouco mais, estava um “morro de muchen” bastante grande com alguma vegetaçâo, e Fombe avisou. Cuidado que pode estar atrás do morro.
Eu disse ao Senhor Duque que se preparasse porque aquele búfalo nos poderia carregar.
Mal acabava de dizer-lhe, ouvi o típico muuu curto do búfalo quando carga e, vi-o arrancar direito a nós, bom a nós nâo, ao Duque que ia no meio e no rasto do animal.
Vi o Senhor Duque levantar a arma e disparar, mas nada aconteceu, o búfalo continuou direito a ele como um comboio desenfreado.
Vi o Senho Duque desaparecer da minha visâo e eu atirei ao mesmo tempo que o Fombe. Parecia que lhe tinham posto uma parede na frente porque se encolheu e caiu a menos de 10 metros donde estávamos nós.
Os meu “messires” que nâo eram nada discretos, começaram a rir-se e a fazer troça do senhor Duque, porque segundo eles o aristocráta corria como coelho para por-se a salvo, nâo se importando que a corôa Ducal se lhe tivesse caído.

Tive que os pôr em paz, e fui com o Duque dizer-lhe que às vezes passava isso, que desculpasse ter que atirar eu, mas era um caso de força maior. Já caçaríamos outro que nâo se preocupasse.
Esteve vários dias, até que veio comigo e me disse: Desculpa pela pretensâo que eu tinha, mas compreendo que às vezes o guia tem que ajudar.
(foto do Duque com o segundo bufalo que matámos perto de uma povoaçâo do Catulena).
Eu fiz que era coisa sem importancia, que já caçaríamos outro e continuámos o Safari do Duque de Estissac, que caçou bastantes bons trofeus. Quando fomos ao elefante, disse-me: “ se vez que nâo cai, atira tu tambem”.
Nâo foi necessário, ele deu-lhe um bom tiro.
Victor “Hunter

quinta-feira, setembro 20, 2007

RETALHOS DAS MINHAS MEMÓRIAS – MOÇAMBIQUE 5

Muito se falou dos leões do Kahalari, dos leões de Angola.
Eu cacei ambos, e a única coisa que notei a diferença, não foi no tamanho, mas sim na forma de caçar.
Em Moçambique um necessitava de maior arte para conseguir um bom leões. Caçava-se quase sempre de noite e raramente encontrávamos um de dia, a não ser no Kanga N’Thole do Araujo, na coutada 1 porque eram leões que muitas vezes vinham da Gorongosa.
Caçar um leão na Macossa, era outra coisa... tínhamos que arrastar um saco de tripas de búfalo ou de zebra por quilómetros, para “deixar o rasto” de um animal ferido, para atrair o leão à isca.
Fazíamos um posto, que muitas vezes tapava todo o Toyota, e aí esperávamos o leão.
Tinha eu, um funil de uns 70 cms de comprido, e muito apertado com uma boca, feita de modo que uma pessoa pudesse aplicar os lábios dentro dela e imitar o rugido do leão. O funil era posto dentro de uma das latas de petróleo de 20 litros, para que funcionasse como amplificador, e no fundo da lata púnhamos água a um altura de 10 cms, mais ou menos, para evitar a vibração da lata.
Havia muitos que o sabiam fazer, mas bem bem, conheci a dois: um era o Fombe, claro, ele sabia tudo, e o Japão o ajudante do Simões. Vi outros mas não lhe chegavam nem aos calcanhares.
Na Macossa, na área do monte M’Panda, ou em outro lugar que se chamava Mazi Machena, que era uma lagoa no meio do mato, onde não havia mais água do que aquela, pois tinha uma nascente, cacei muitos leões, e quando digo muitos, foram mais de 30 leões naquele lugar.
Seguidamente, somente vou por algumas fotografias, dos leões caçados naquelas terras da Macossa, que nâo tinham nada que invejar aos célebres leões do Kalahari.
Uns foram mais fáceis de caçar outros não, tive que andar noite atrás de noite para poder conseguir encontrá-los.
Somente com muita perseverança, se conseguia um bom leão da Macossa. A sorte influia, mas conseguíamos muito melhores resultados se trabalhássemos para que as coisas sucederam.
O Seguinte leão foi morto por um bom amigo de Barcelona o meu amigo António Farras. Com este leão ganhei uma aposta de um jantar num lugar especial de Barcelona, que aqui nesta página nâo poderia contar, porque nâo é proprio para pessoas como nós, que somos pessoas decentes.


(Na foto: estou eu e António Farras)
Esta aposta foi feita com o António e com o Pepe na foto que segue.


Foram dois leões no mesmo safari, e o mais divertido foi a dedicatória que tem esta fotografia.
“A los “machendes” de Victor”, porque faltou pouco para que este leão nos matabichasse-jejeje, mas isso sâo histórias de caçadores, que muitas vezes são verdadeiras “cunhepas” (em sena- mentiras).
E como dizia o avô: que 3 caçadores e três pescadores, faziam meia dúzia de mentirosos...













Este leão foi caçado na base do Monte M`Panda, pela senhora e grande amiga Loli Zunzunegui, de Madrid.
Era um belo leâo de juba entre preta e côr de laranja.
Esta senhora era uma desportista fantástica, à parte de caçar gostava de pescar tambem. Eu acompanhei-a um par de vezes à Santa Carolina, onde pescámos um marlim, barracudas e muitas diferentes espécies.
No seus safaris conseguiu uma boa colecção de troféus entre elefantes, leopardos, leões e Búfalos.
Havia mulheres caçadoras fantásticas, que até hoje eu admiro pela valentia que mostravam em momentos difíceis nas nossas savanas e florestas.

Seguimos com alguns leões que conseguimos nas terras da Macossa, Atrás da Serra da Gorongosa.

Este é outro leão do Mazi Machena, que conseguimos depois de uma noite de estar esperando-os.



O Sr. Mata de Barcelona, com o Japão que naquela noite me acompanhou, porque o Fombe estava doente. Um bruto, que nos quis carregar, mas não lhe demos chance.


Este leão era do meu cliente e amigo Rafael. Lembro-me que nessa noite o frio era tão grande que entre os dois nos bebemos uma garrafa de cognac, pois não havia forma de aquecer-nos.
Terminámos com o leão, gelados e quase a ponto desistir, mas caiu à última hora.
Isto foi somente para dizer-lhes que Moçambique também tinha grandes leões que não ficavam atrás dos melhores países de África.
O que passou é que devido às exigências do nosso governo, nunca os cineastas lhe fizeram a propaganda que faziam ao Kenia e, à outros países.
Também porque nos tandos, ainda que houvessem leões, nâo havia a facilidade de os ver como no Serengueti, o no Massai Mara, e também no Grande Deserto do Kahalari.
E na Macossa, quase impossível de ver um leão de dia. Era floresta aberta e não havia tandos ou grandes planícies.

Victor “Hunter”


RETALHOS DAS MINHAS MEMORIAS – MOÇAMBIQUE 4

Este capítulo devia chamar-se: COMO AMARRAR UM LEOPARDO...Havia um senhor em Madrid, cujo nome era José Maria Sanchiz Sancho, um tipo alto fornido, que naquele tempo teria uns 75 anos, que era um homem importantíssimo. Diziam que ele era das poucas pessoas que podia por um braço sobre Franco, pela amizade que os unia. Era tio do Marquês de Villaverde, e diziam que era administrador de muitas coisas que tinha a família Franco. Tinha uma “finca de perdizes” que era uma maravilha, onde o General costumava ir dar os seus tiros. Era um homem poderoso, e podia mover muitos cordéis na “política” daquele tempo. Diziam que podia “fazer” e “desfazer” ministros. Pois bem este senhor, um dia que eu estava em Madrid a promover os safaris, fez com que a sua secretária me chamasse para concretizar uma entrevista, queria ir de safari três semanas e queria falar comigo. Quando entrei no seu escritório, da Calle Alcalá, a sua secretária fez-me passar e aí conheci a este senhor que veio a ser um grande amigo e que com o tempo, até me “autorizou” que o chamasse Tio Pepe… Chegou a Moçambique, e daí fomos para o acampamento da Mazamba; o animal que ele tinha mais interesse era um bom leopardo, pois tinha estado em África, com a Safrique, e não tinha conseguido matar nem leão nem leopardo. Começámos o safari, e começámos a obter os troféus, pouco a pouco. Não era um grande atirador, mas tinha muito entusiasmo pela caça e isso era importante. Matámos búfalos, todos os antílopes e o safari ia decorrendo, muito bem. Não podia caminhar muito e por isso esquecemo-nos dos elefantes.

Era um comilão de alto lá com ele. Em Madrid tinha-me perguntado o que é que lhe íamos dar de comer, quando eu lhe disse, não lhe gostou nada a minha proposta. Queria comida espanhola, então eu disse-lhe: “Oiça, a mim disseram-me que o senhor é conselheiro de Ibéria e, que lhe dão bilhetes grátis e não paga nada na Ibéria. Porque não compra o que goste, manda fazer uma caixa e manda para Moçambique e assim quando lá chegue tem tudo o que necessita.”? Pensou um pouco e disse-me: Sabes que eres un sin vergüenza, pero simpático?E ao outro dia mandou arranjar tudo para que em Moçambique não lhe faltasse nada. Nâo mandou uma caixa, mas sim três que chegaram à Allen Wack, que eu mandei levar depois para o acampamento, e assim o homem andava contente, e comia do que gostava. Fez uma boa equipa com o meu cozinheiro Vilarique, pois ele ensinava-lhe o que queria que ele fizesse. No final do safari até o queria levar para Espanha. Para caçar o leopardo, fomos para o acampamento do Botão que estava situado, onde termina a floresta de Inhamitanga e começa o tando do Botão. Este acampamento somente o usava, quando queria vi a caçar algum leopardo, ou suni, que havia por milhares. Fomos ao tando, matámos um búfalo, para usar as patas traseiras como isca para o leopardo. Pusemos várias iscas e, pelas manhãs sempre íamos ver se algum leopardo tinha comido. Um dia encontrámos uma das iscas comidas e preparámos tudo para construir um lugar tapado, ou posto, onde pudéssemos por uma cadeira e esperar aí o leopardo, sem que ele nos visse ou cheirasse. No acampamento eu tinha umas caixas de cartão, nas quais desenhei um leopardo, para que o Tio Pepe, assim já o chamava eu, pudesse treinar a atirar com a luz do farolim. Nesse dia à noite, pusemos as caixas, e pedi-lhe que quando eu acendesse o farolim, que ele atirasse o mais rápido possível ao “leopardo”.Tentámos três vezes e nada. Ele não via bem de noite e não lhe dava. Mandei ir buscar uma caçadeira que eu tinha de 5 tiros automática, e depois de carregá-la com cartuchos SGS, e de pintar com giz a “cinta” da espingarda, pedi-lhe que atirasse, e ele sim dos 9 chumbos deu-lhe com 6 e alguns em lugar onde poderia ter morto o leopardo. O problema era o tempo que demorava a atirar. O leopardo não esperaria tanto. ...enquanto ele e o cozinheiro faziam o almoço eu disse-lhe que iria ver se tinha comido algum leopardo mais. O que fizemos foi ir à isca onde tinha comido o leopardo e preparar uma forma para amarrar o gatinho, para que lhe dera tempo ao Tio Pepe, de atirar.

Usámos um cabo de aço maleável, que conseguiam os “furtivos” dos travões dos comboios, e amarrámos o laço do lado contrário de donde o leopardo entraria a comer. O leopardo ao passar por um emaranhado de ramas estratégica mente postas, para que tivesse que entrar por o lugar preciso, faríamos que o gatinho estivesse a comer com o laço à volta do pescoço e sem senti-lo, somente quando saltasse o laço apertaria e daria tempo ao Tio Pepe de atirar. A armadilha estava pronta para que o leopardo entrasse e pelo menos ficasse amarrado o tempo necessário para que o Tio Pepe, pudesse atirar. O Fombe tinha esfregado um pouco de sal na carne do búfalo, segundo o que aprendi dele, era que o leopardo nunca tinha provado sal e ao comer a carne, “condimentada” sempre regressava e quando comia estava tranquilo. Seria verdade? Nunca pude perguntar a nenhum leopardo... Regressámos ao acampamento e esperámos pela tarde. Às 5 da tarde já estávamos dentro do posto sentados, o Tio Pepe, o Fombe y eu. Ao lado do Tio Pepe, apoiada num dos ramos, estava a caçadeira calibre 12 carregada com 5 tiros SGS, de 9 chumbos de 9 mm de diâmetro. A uma distância tâo curta eram sumamente efectivos e mortais. Algumas vezes na minha vida de caçador, tive que ir à procura de leopardos feridos pelos meus clientes. Nunca usei uma espingarda de bala, sempre levei aquela velha automática marca Savage de 5 tiros, que funcionava de maravilha para estas ocasiões e que nunca falhou. Era somente para o que a tinha, porque como caçadeira, sempre gostei de usar uma de doble cano paralela, que ainda hoje conservo, feita por Victor Sarrasqueta, que é uma jóia. Esperámos pelo leopardo e perto das 8 da noite, o leopardo entrou e começou a comer, pois podia ouvir-se perfeitamente. Com os binóculos podia ver perfeitamente a silhueta do animal. Preparei o farolim e disse ao Tio Pepe que se preparara. Quando acendi a luz lá estava o leopardo. Eu até podia ver o laço à volta do pescoço. O Tio Pepe demorou um pouco e disparou, o leopardo saltou e vi como ficava amarrado o laço, e ele lutou um momento para soltar-se. Disse-lhe ao Tio, “atira outra vez” e ele atirou e o leopardo caiu fulminado porque alguns chumbos lhe tinham dado na cabeça.

Dei o farolim ao Tio Pepe e tirei-lhe a caçadeira da mão, para que ele ficasse a iluminar-nos enquanto íamos nós a ver se estava morto. Isto foi somente uma forma para que ele ficasse onde estava. Fombe e eu saímos e aproximámo-nos lentamente do leopardo, até ver se estava bem morto. Quando lhe toquei com a ponta da espingarda, vi que nâo se movia. Fombe pôs-se de costas para o Tio Pepe que nos continuava iluminando, e sacou-lhe o cabo, que estava bem apertado, para que ele não o visse. O Toyota chegou, pois tinham ouvido os dois tiros e eu tinha-os mandado esperar longe daí. Então já o Tio Pepe deixou o farolim e veio juntar-se a nós. Felicitámo-lo pelos bons tiros que tinha dado. Ficou contentíssimo o velho Tio Pepe. Isto até parece uma história para os miúdos dormirem, mas sim, assim foi como amarrámos um leopardo, para que um velho e poderoso amigo, pudesse regressar a Madrid. Por ele consegui muitos clientes, para que viessem caçar comigo em Moçambique.

Victor “Hunter”

RETALHOS DAS MINHAS MEMÓRIAS – MOÇAMBIQUE 3

José Simões. Mariano Ferreira e eu fomos para Lourenço Marques, para apresentar a nossa petição ao director dos Serviços de Veterinária, que naquele tempo era uma boa pessoa com quem o Simões tinha uma magnífica relação, que era o Dr. Castro Amaro.

As pressões da Safrique, através do Banco Nacional Ultramarino, não se fizeram esperar, mas tivemos a sorte que naquele tempo havia alguns jornalistas que eram amigos, e que o meu bom amigo Aderito Lopes, também jornalista, que tinha estado vários meses no acampamento do Kanga Nthole comigo e no qual fizemos uma boa amizade, moveu os cordelinhos e começaram a sair artigos nos jornais de Lourenço Marques a falar do monopólio que queria a Safrique a comprar as coutadas do Armindo Vieira, do Araújo e tudo o que podia.

... uma manhã recebemos uma chamada no Tivoli do Dr. Castro Amaro, para que os apresentássemos na Veterinária. Tinha um mapa das coutadas sobre a mesa, e perguntou-nos o que é que queríamos.

Eu pedi a Mazamba e a Macossa. O Simôes o tando do Chiniziua, e o Catulene. O Mariano pediu Inahmitanga até ao tando do Botão e assim ficamos estrategicamente instalados al redor das coutadas da Safrique.

Porque eu aparte dessas áreas sempre cacei no Rio Muira a norte da Coutada 9 da Macossa, pois aí tinha eu construido um acampamento, quando caçava com o Salzone, que aproveitei, para mim depois, quando o Salzone vendeu a coutada ao Champalimaud.

Isto contei-o em meia dúzia de linhas, mas se soubessem o que custou conseguir essas áreas... um trabalhão, metendo e falando a Portugal, com pessoas verdadeiramente importantes naquele tempo.

...Construimos acampamentos que eram verdadeiramente bonitos e confortáveis, com os pouco recursos que tínhamos.

Durante esse tempo não tivemos um só cliente que tivesse alguma queixa dos seus safaris.

Não tínhamos os recursos do Banco Nacional Ultramarino, mas tínhamos uma coisa: bom gosto, e entusiasmo para fazer as coisas.

Lembro-me que o fiscal Dias, que era muito “amigo” da Safrique, era um tipo que andava sempre sobre nós, até que um dia eu “fiz-lhe ver” “delicadamente”,... que me deixasse em paz, e nunca mais voltou. Digo isso não para gabar-me ou por ser bravo, nada de isso, é que ele um dia levou o MEU PISTEIRO FOMBE, para o Dondo, para ver se lhe conseguia sacar alguma coisa, por causa de um hipopótamo que apareceu morto numa lagoa que havia, a uns 500 metros da linha de marcação do Parque Nacional e que eu não tinha nada a ver com isso. Claro que o Fombe era uma tumba e não disse nem pio. Hoje posso dizê-lo, que eu sim sabia que o meu amigo Júlio Barroso o tinha morto, para dar comida aos trabalhadores da plantação de algodão que tinha muito perto do nosso acampamento.

Que fiscalizasse, muito bem porque isso era o seu trabalho, mas que fosse a casa do Fombe buscá-lo e levá-lo para o Dondo para força-lo a dizer qualquer coisa, isso sim que me pôs fulo. Desde esse dia nunca mais vi o Dias por aquelas paragens e quando passava no Dondo, selavam as licenças para eu poder passar e nunca mais me verificaram o que levava. Passaram a “confiar” em mim. Até que um dia...


...Na foto, Luis Martin de Oliva, de Sevilha, Javier Alonzo e eu. Esse acampamento estava todo feito com troncos de pau-ferro, e as juntas feitas com cimento branco.

Nâo se podia cravar um só prego, tinha que ser feito um furo com uma broca e entâo podíamos meter os pregos.

Ficou uma maravilha porque de longe parecia uma aldeia dos indígenas da regiâo, mas por dentro estava divino.


Outra vista do acampamento por dentro.


Dentro do Rio Pompué, que é afluente do Zambeze, fizemos um poço, com aneis de concreto, para poder ter uma água limpa e cristalina, que era filtrada pela areia branca do rio.

Nesta área, os meus clientes obtiveram grandes pala palas, Nyalas e Elefantes.

Se se lembram da Senhora Rosa Segura, da qual falei quando escrevi sobre o Sudâo, pois aqui ela tambem conseguiu caçar dois elefantes numa floresta que eu conhecia, havia muitos anos, e que ninguem caçava...

Na seguinte fotografia está Rosa Segura com um dos elefantes que caçamos naquela área.


Esta senhora, e o seu marido Federico, vinham todos os anos passar um safari de 30 dias comigo e sacávamos todas as licenças e senhas que a lei dava licença.

Eu reservava sempre a senha de um elefante que eu comprava para que se encontrássemos algum melhor do que havíamos morto, ela lhe pudesse atirar. E o registava ao meu nome, para poder depois enviá-lo a Tarraza, perto de Barcelona, onde eles viviam.


Os elefantes cairam a uns vinte metros um do outro, mas, até agora nâo consegui encontrar a fotografia do outro.

No ano anterior a Rosa também caçou um elefante razoável na Mazamba. A foto seguinte é das pontas de outro elefante que conseguimos na área do acampamento da Mazamba.



Cada vez que vejo estas fotos, começo a pensar nos anos que passaram e as voltas que deu a vida. Federico tem já 81 anos.
Cada vez que falo com ele pelo telefone, ouço-o com voz sã, não parece a idade que tem.
Grandes amigos.


Este era o acampamento do Catulene visto de fora, que como dizia, parecia um aldeia indígena, mas era uma maravilha de acampamento, e muito bonito por dentro. As cortinas e as colchas das camas estavam feitas de pano de capulana , com cores vivas, que lhe davam um ar alegre e confortável. (as árvores que se vêm na foto, sao árvores de maçanicas, aquelas amarelinhas que eram deliciosas).

Aquí pelas tardes podíamos atirar com a caçadeira aos “sand grouse” , uma ave que parece uma pequena codorniz, que vinham a beber ao rio aos milhares.

Atirávamos até nos cansarmos, pois tinham um sabor esquisito, quando se preparavam estufados com cogumelos e acompanhados de uns espargos brancos. Mmmmmm somente de lembrar-se me me faz água na boca.



Victor “Hunter”

RETALHOS DAS MINHAS MEMÓRIAS - MOÇAMBIQUE 2

Se contasse todas as peripécias que passei em Moçambique, nem um livro de duas mil páginas chegaria para descrever as minhas " aventuras" naquela adorada terra.

Cacei um par de anos com o Alberto Araújo, e fiz alguns safaris com gente quase sempre dos Estados Unidos, até que um dia fui mandado fazer um safari com o Marquês de Villaverde, e a sua esposa Carmen Franco, filha do General Francisco Franco.
(Na foto: Adérito Lopes, (jornalista e meu amigo), a Marquesa de Villaverde, hoje Duquesa de Franco, Loli de Aznar e eu.)

Também caçava nesse safari a Sra. Loli de Aznar e o seu marido Eduardo, com quem continuei a amizade , até à morte dos dois.

...Nesse safari, conheci a um bom amigo, o Celestino Gonçalves, a quem todos os moçambicanos conhecemos, através da sua página que fala da Fauna Bravia, de caçadores e histórias de caça.

...Um dia, estava eu sentado no Café Capri, quando o José Joaquim Simôes, o do Simôes Safaris, se sentou à mesa comigo, antes de subir ao escritório que ficava por cima do café Capri. Falou comigo e me propôs para que eu fosse trabalhar para ele esse ano como caçador-guia...

...Ele tinha muitos clientes espanhóis e necessitava de mim. Fui falar com o Araújo e disse-lhe que nesse ano eu não caçaria com ele, porque o Simões me tinha oferecido mais dinheiro. Isso assentou ao velho como um estalo. Ele não estava em boas relações com o Simões, e eu ao deixá-lo, não lhe fez graça nenhuma.

Total, cacei para o Simões aquele ano, mas como a companhia andava mal financeiramente, nâo pagava aos empregados e eu era um dos que não recebi o meus devidos salários, e como outros caçadores, deixei de caçar para ele.

Quando isto aconteceu, já eu estava viuvo, pela morte da minha esposa, a Gugas. Era um miúdo, e já viuvo com uma filha. Por isso digo que poderia escrever duas mil páginas, antes do que lhes estou a contar agora.
Mas continuando...

A minha vida na Beira, não andava bem de todo, e depois da morte da Gugas, comecei a frequentar cabarets, e um miúdo de 21 ou 22 anos, era "presa" fácil, para as meninas dos cabarets que frequentava, porque quando alguém lhes dizia que eu era viuvo, e tão novo, saia-lhes o "instinto maternal" e todas queriam ajudar a que eu não sofresse tanto, segundo elas...

...Assim um dia, encontrei-me a viver com uma das vedettes do Campino, num apartamento do "famoso" Prédio Primavera. Era um perder de noites constante, uma vida de copos, enfim um verdadeiro caos, um "despapaio" como digo eu.
Tinha que mudar de vida.

...Essa mudança surgiu, depois de eu abandonar Moçambique e ir trabalhar duas épocas com o Harry Selby, na Botswana, graças a um cliente americano, que me recomendou muito a esse senhor.

...Regressei à Beira, e fui abordado por uma grande amiga a Sra. D. Ofélia Freiria, que naquele tempo trabalhava para a Allen Wack & Shepherd, e que eram agente do Francisco Salzone, que tinha a base da sua organização de safaris em Marromeu. Ela perguntou-me se eu poderia ir caçar com o Salzone nesse ano? Eu disse-lhe que sim, e foi assim que eu passado dias me encontrei em Marromeu, viajando em direcção ao acampamento do Rio Pompué, onde me esperava o Chico Salzone, no acampamento do Pompué (havia dois Pompués, um nos tando de Marromeu e outro no Catulene e ambos afluentes do Zambeze. Aí tive por companheiros, o Mário Lopes, o Jack Silva, o Jimmy Chalmers, o Carlos Artajo e o José António Moreno.
(Na foto: Carlos Artajo, José Antonio Moreno, Nati Vieitez chica, Edelmiro Vieitez, F. Salzone, Nati Vieitez, mamâ, Jimmy Chalmers, eu e Harry o Mecânico)

Cacei com vários clientes da Organização do Salzone, e para aproveitar uma foto que aqui tenho e para poder gabar-me um pouco, ponho-a aqui porque é uma foto com o Record do Mundo de Inhacoso ou Waterbuck, que caçou o Edelmiro Vieitez, de Madrid, e que mediu 39" e meia . Somente havia um assim registado nos livros do Rolland & Ward, que diziam que estava no Museu de Historia Natural de Londres, mas esse tinha sido encontrado e não caçado. (?).
(Na foto: Sande um grande "messire" dos pantânos, eu, o Inhacoso -jejeje-, Edelmiro e Gonçalo o ajudante do carro.)

Com o Salzone estive até ao dia que "correram" o Simões, da Safrique, e ele abordou-me para que trabalhássemos por nossa conta, cada um numas áreas diferentes e pelo menos com dois acampamentos cada um para poder fazer frente aos clientes que ele iria angariar e com os que pudéssemos contar por nossa parte.

Iríamos conseguir autorização do Governo para caçarmos nas áreas livres, e foi assim, que depois de muita luta, muitas dificuldades, de uma guerra feita pela Safrique diga-se BNU, contra nós, conseguimos as áreas da Mazamba, Macossa, Inhamitanga, Catulene e os tandos do Chiniziua.
Victor "Hunter"

RETALHOS DAS MINHAS MEMÓRIAS-MOÇAMBIQUE 1

Moçambique, Ah Moçambique.

Quantas recordações, quantas saudades daqueles tempos, em que eu era um miúdo.

Lembro-me da emoção, que sentia, quando nas férias depois de passar um ano de estudos, com os meus avós em Mangualde, (eu estudava no que era considerado um dos melhores colégios de Portugal. o São José e Santa Maria) regressava a África para passar os meus três meses de férias.

Não só porque ia ver a minha família, mas sim porque, eu me sentia mais livre, ao regressar a terras africanas...

...Uns calções, uma camisa, umas sandálias, um fato de banho e uma toalha, era tudo o que necessitava para andar naquela Beira que eu sempre adorei.

...As matinés do Cinema Rex e do Olimpia, um café gelado no Scala ou no Capri, e um parfait no restaurante do Emporium. Mmmmm, ainda me lembro do sabor daquele parfait, que por muito que haja andado pelo mundo, ainda nâo encontrei, até hoje um que soubesse como aquele do Emporium; talvez porque sempre ia com a minha namorada, que mais tarde foi a minha mulher, mãe da minha filha Isabel. As manhãs na piscina do Grande Hotel, as ameijoas do Oceana com uma cervejinha Manica, tanta e tanta coisa, que estão bem gravadas na minha memória


...O meu pai foi um bom amigo do Araújo,(foto) e mal podia, eu apresentava-me com o velho caçador e perguntava-lhe se podia ir ajudar no acampamento do Kanga N’Thole. Se havia algum trabalho para mim para ajudar no quer que fosse?

Sempre ia pelo menos uns 15 dias até aquele acampamento que eu adorava, nas margens do Rio Inhangdué, no distrito da Gorongosa.

Ajudava no que podia. Ia levar material aos acampamentos do Tengane, do Inhanfisse e Inahmapaza,

Naquele tempo os meus ídolos eram o Wally Johnson e o Harry Manners, que trabalhavam para o Araújo como guias.

Com os anos comecei a conhecer aquela área como se fosse a minha rua. Não havia picada, ou caminho que eu nâo houvesse trilhado, quando cheguei à idade de poder ser caçador-guia...

Fui o caçador-guia mais jovem que havia naquele tempo, e tudo por uma coincidência do destino.

...O Dr. Azeredo Perdigão, que era o Presidente da Fundação Gulbenkian, era tio do namorado de uma prima direita minha, hoje marido dela, da minha prima Teresa.

...o meu avô Cabral, dava-se bem com essa família de Viseu,

Eles estavam em Moçambique convidados pelo que foi Ministro do Ultramar, Almirante Sarmento Rodrigues, que naquele tempo era Governador Geral de Moçambique.

Nessa viagem, eles tinham como parte do itinerário, uma visita de 6 dias de caça ao Kanga N`Thole.


Por coincidência eu estava lá de férias pensando regressar a Portugal para ingressar à Universidade, pois tinha acabado o Liceu, e encontrava-me de férias em Moçambique e no Kanga N’Thole. ...acompanhava como “ajudante” ao Araújo, no curto safari que eles queriam realizar. O velho Araújo, já naquele tempo tinha um grande problema respiratório que não o deixava caminhar muito, o que muito me ajudou, para que se desse o episódio que mudou a minha vida.

Saímos do acampamento o primeiro dia, para ver se matávamos alguma coisa. Atrás do nosso carro, vinha a comitiva daqueles personagens, em três carros mais. Era um barulho dos diabos, a senhoras falavam alto e os animais agradecidos pelo aviso, pois corriam e nâo davam chance para atirar a nenhum. Total, regressámos ao acampamento com uma vil gondonga e nada mais.

Eu sabia que o que lhe gostava ao Almirante era caçar búfalos.

Nesse dia, depois de comer, à hora de mais calor, todos foram dormir a sesta, e os guarda costas da PIDE, também se retiraram para as suas instalações.

Eu estava no bar, sozinho, quando chegou o Almirante S. Rodrigues.

Então eu disse-lhe: Senhor Almirante, com tanta gente a fazer barulho, o Sr. nâo vai caçar nada.

E que opinas tu? Perguntou o Almirante? Avise ao seu pessoal e vamos, eu levo-o onde penso que andam os búfalos. Fui falar com o Araújo e disse-lhe o que tinha dito ao Almirante, e sempre lhe agradeci a confiança que teve em mim e me deixou levar o meu primeiro cliente “solo”.

Saimos com o Macorreia e com o Fombe, e fomos direito à lagoa da Lunga, uma lagoa enorme que havia na coutada no 1.

Mal chegámos à área da lagoa, vimos logo o rasto de uma grande manada de búfalos que tinha estado a beber não havia muito tempo. Seguimo-la com o carro e vimo-la ao longe no tando do Inhanfisse.

Baixámo-nos da camionete, uma Chevrolet Apache Modelo 1954, e lá fomos nós aproximando-nos aos búfalos. Os dois “messires” Fombe e Macorreia, escolhiam o vento e, escondendo-nos com os “M’Cheus” chegámos a uma distância de uns 70 metros dos búfalos. Eu escolhi o que me parecia um bom troféu e disse-lhe que disparasse. Tiro dado à altura do coração e os búfalos arrancaram numa estampida.

Vimos ao que o Almirante tinha atirado, caminhar devagar e vi que lhe estava saindo sangue pelo nariz aos borbotões. O Almirante queria atirar e eu disse-lhe que deixasse que ele cairia num momento. E assim foi, o búfalo foi ao chão e fez aquele mugido que somente faz quando está a morrer.

Caminhámos até ao búfalo e chegámos-lhe por trás e vimos que estava morto. O Almirante apertou-me a mão e agradeceu esta caçada.


Depois de carregar o búfalo em duas partes, continuámos a nossa volta, e mais adiante vimos uma Pala-Pala, que também foi ao chão com um tiro do velho Almirante.Para cúmulo da “minha” sorte, quando íamos a sair a um dos tandos, os pisteiros, disseram,” pára, pára” e o Fombe estava a mostrar-me um leâo, que estava a comer, numa isca que tinha deixado havia dias o Chico Coimbra.

Nem tarde nem cedo, o Almirante agarrou a arma e disparou-lhe um tiro de 375, que fez o animal saltar, correr um pouco e caiu morto.

Que dia de safari... e sabem quê, nem ele nem eu levávamos uma máquina fotográfica. Eu porque não tinha dinheiro para comprar uma, e o Almirante porque a tinha deixado com a esposa que estava no acampamento.

Mas as recordações ficaram.

Chegámos ao acampamento com todo o pessoal a cantar a morte do leão.

Vieram-nos a receber e eu, ainda que não o demonstrasse, estava super orgulhoso, do meu primeiro safari que conduzi sozinho.

Já tinha que contar à minha namorada, a Gugas, quando chegasse à Beira.

Durante os dias que esteve a visitar-nos a comitiva do Almirante, ele disse-me:

“Victor, sei que não tens licença de caçador-guia. Gostarias que eu te conseguisse uma?” Pois claro...era o que eu mais queria. Por sorte tinha umas fotografias na minha carteira e quando acabou o safari, ele levou-as.

Uma tarde estava eu no acampamento e vi chegar um jeep da polícia e vieram entregar-me a minha licença de caçador-guia, que marcou assim o meu abandono dos estudos para começar uma vida de aventuras, da qual não estou nada arrependido.

O meu melhor amigo e companheiro de colégio, fez-se engenheiro electrotécnico, e ganhava naquele tempo em Lisboa perto de 5 contos, e eu comecei imediatamente a ganhar 12 contos mais as gorjetas que alguma vez ultrapassaram o meu salário, e por cima pagavam-me muito bem, por aquilo que mais gostava fazer.

Amigos este é o primeiro relato dos Retalhos das Minhas Memórias em Moçambique.

Victor “Hunter”

segunda-feira, junho 11, 2007

Uma carta ao passado

Ontem fui passear pelo frio da manhã.
Há muito que não caminhava por esta cidade.
Passei pela rua em que vives, sem saber que te ia encontrar.
O destino quis que te visse,
Saías da casa alegre
Com dois netos pela mão
Pensei que o coração me ia sair pela boca,
Estava tão estupefacto e nervoso, que não sabia que fazer.
A única coisa que me me veio à mente, foi esconder-me atrás das árvores do passeio.
Ias em direcção ao jardim com o desvelo de avó.
Brincavas com os miúdos
Olhei para ti com a ternura que sempre te tive
Pensando que esses também podiam ter sido meus netos.
A tua cara, ainda que com algumas linhas de expressão mais profundas
Era a mesma cara pela que me apaixonei perdidamente
Naquela Beira tão distante, na África dos nossos amores.
Para mim continuas a ser a mais bela do mundo.
Os teus cabelos, ainda têm aqueles raios dourados
Ainda que agora mais curtos.
Lembras-te como adorava brincar com eles?
Passar as mãos pela tua cabeça
Sentir a tua sedosa cabeleira, era um prazer
Que não pôde dar-me nada do mundo.
Nem as flores mais belas do universo,
Nem a composição musical mais sublime
Me podiam ter dado um tão grande prazer,
Como o de tocar-te com as minhas mãos.
Era como compor a melhor sinfonia de amor,
Como criar o melhor perfume do mundo,
Como sentir o prazer de uma contemplação divina.
Enfim, foste o melhor que me sucedeu, em toda a minha vida.
Agora via-te tão atenta aos jogos dos meninos
Tão feliz, dando aquilo que sempre melhor soubeste dar:
Amor, mais amor e, uma ternura infinita,
Sem dares-te conta que eu te estava a observar.
Vendo-te como agora te via, neste parque em que estamos.
Tentei imaginar-te com aqueles vestidos dos anos sessenta,
Com a mini saia que muitas vezes levavas,
Naquelas terras de Moçambique que tão longe estão.
Como era excitante olhar para ti vestida somente
Com aqueles vestidos tão curtos, que mostravam
As mais belas pernas que eu tinha visto na minha vida.
Um corpo esguio como um bambu a que o vento movia,
Todo esse conjunto, colmado por uma cara de boneca
Que, trazia a todos os homens perdidos por ti.
E que sorte a minha...eu fui o escolhido.
Ter-te nos meus braços, nervosa, medrosa mas excitante,
Foi a experiência mais sublime da vida.
Foi como que um sonho do qual um não quer despertar
Por ter medo que essa experiência tivesse apenas sido um sonho.
Obrigado meu amor, por me teres escolhido para ser o teu primeiro amante.
Eu continuei escondido pelas tílias do parque,
Observando-te, amor da minha vida, de longe para que não me visses.
Pelo amor que te tenho, não quero de maneira nenhuma
Perturbar a paz em que vives agora.
Nào tenho o direito de alvoraçar a vida pacífica que tens.
Ah! Como gostaria de poder estar ao teu lado,
Poder contar-te que, apesar da minha vida de viajante incansável,
Sempre te tive no meu pensamento.
Muitas vezes dava-me conta que estava a falar contigo,
A descrever-te paisagens e lugares, como se os dois
Os estivéssemos a visitar juntos.
O homem que escolhes-te para estar ao teu lado,
Sei que foi um bom homem, que mereceu toda a ternura e compreensão Que lhe deste, até à sua morte.
Lembras-te que estivemos juntos, uma semana antes de casar-te com ele.
Que me dizias que me amarias para sempre?
Eu entendi, que a vida que tinha, não era uma vida que tu pudesses aguentar.
Uma vida de aventureiro, que não queria problemas,
Que unicamente lhe interessava aventuras loucas e constantes.
Ah! Meu amor, se tivesse sabido o que realmente era a vida...
Nunca te tinha deixado, porque querida.
Tu foste e és, o grande amor da minha vida.
Agora vejo-te regressar a casa. O frio da tarde está a começar a cair
E, aí vais tu com os teus netinhos.
Eu regressarei ao país onde vivo há muitos anos.
E tu continuarás com a tua vida, sem nunca saberes
Que eu te estive a observar durante algumas horas.
Ao ver a porta fechar-se, uma lágrima corre pela minha face
Porque sei que tu para mim, continuas a ser o único grande amor da Minha vida,... mas, impossível.
Na hora em que Deus me chame a dar-lhe contas da minha existência,
Nesta terra , eu terei na mão, aquela velha fotografia tua que me dedicaste no dia dos meus anos, que de tanto tocá-la já tem os bordos gastos, e que me acompanhou durante toda a minha vida.
Quero que tu, sejas a última visão que tenha deste mundo.
E com o diz aquela canção de amor:
“Espero-te no céu, coração...”


Victor Cabral "The Hunter"

quarta-feira, outubro 04, 2006

RETALHOS DAS MINHAS MEMÓRIAS 12

Ao deixar o deserto Pit e eu nos fomos direitos a Sá da Bandeira, onde passámos o dia e a noite para sairmos demanhâ às seis da manhâ num aviâo que nos levaria às terras do fim do mundo.
Ás seis em ponto estávamos preparados para descolar, em direcçâo à cidade de Serpa Pinto, onde teríamos que aterrar e encher outra vez os tanques de gasolina, para continuar viagem até ao acampamento e para que o piloto pudésse regressar.
Era um aviâo Cessna, e a distância que íamos percorrer era mais ou menos de 1100 kilómetros. Demoraríamos quase 5 horas para chegar ao destino, mas valia mais isso que aguentar a viagem por terra que quase sempre demorava 30 ou mais horas.
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Quando durante o ano tivemos que fazer essa viagem, sempre conduzíamos duas pessoas por um período de duas horas cada um e assim chegávamos menos cansados. Enchemos os tanques e fomos até ao hotel Srpa Pinto para almoçar e depois de conversarmos com uns amigos que viviam naquela cidade, voltamos a subir-nos ao aviâo para dirir-nos ao acampamento, ao qual calculámos chegaríamos em duas horas e meia.
Chegámos ao acampamento conforme estava previsto. Meia hora antes de chegarmos, falámos por rádio e Noel veio buscar-nos ao campo de aviaçâo.
Carregado a bagagem e as armas de Pit no jeep, dirigimo-nos ao batelâo para passar para o "nosso" lado.
Como sempre os rapazes militares que estavam no aquartelamento foram ajudar-nos com o cabo do batelâo.
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Nesta foto está Pepe Godoy, um cliente espanhol que estava já caçando no nosso acampamento havia quase três semanas eu e vê-se um pouco de Mucungo um dos pisteiros camechequeres ou bushman).
Chegámos ao acampamento com bom tempo para dar-nos um banho quente, e jantar para que na manhâ seguinte retomássemos a continuaçâo do nosso safari, interrompido por dois dias de viagens. Começaríamos no acampaento do Sacaxai, para depois mudar-nos para o acampamento do Dirico, onde aí terminaríamos o safari.
Como isto sâo somente Retalhos das minhas memmórias falarei de alguns dos trofeus dos muitos que Pit adquiriu, neste safári que tiveram exito na apresentaçâo deles na Convençâo do Safari Club International.
Uma manhâ íamos devagar porque estava um frio que cortava, pois nâo sei se sabem mas o Sul de Angola nos meses de Julho e Agosto, sâo os lugares mais frios que existem em África. Ao deixarem um balde de água fora exposto ao frio da noite, havia noites que se transformava num bloco de gelo. Por isso andavamos sempre bem agasalhados até mais ou menos às 9 da manhâ; no Toyota levávamos um saco de lona para começar a meter as camisolas e os anoraks e casacos de pele, que tínhamos que usar demanhâ quando saíamos a caçar e, para as noites, quando regressávamos aos acampamentos.
Pois como dizia, íamos devagar e vimos entre a floresta aberta que íamos atravessando uma boa manada de Pala-Palas ou Palancas Pretas. Parámos o carro e caminhámos um pouco com o vento a nosso favor para ver se conseguíamos ver um macho que vaesse a pena como trofeu. Eu com os binóculos procurei entre mais de 30 animais e do outro lado da manada aí estava um macho imponente. Parecia "quase" uma Palanca Gigante, mais pequena, claro. Disse-lhe a Pit que nâo tirásse os olhos dela e que o seguisse com a lente da sua 270. Pit estava com a mâo apoiada numa pequena árvore vendo pelo óculo da espingarda. As Palancas estavam bastante tranquilas e iam caminhando devagar. Ouve um momneto que o macho parou e Pit nâo perdeu tempo. Um tiro e ouvi o "ploff" que soa como um tambor surdo, quando o animal é atingido. Vi a Palanca correr com uma grande velocidade e desaparecer no meio da floresta aberta.
Caminhámos pelas marcas das pegadas dos animais com Fombe e Mucungo adeante. Caminhámos 30 metros e Fombe fez aquele ruido típico com a lingua que fazem os caçadores que soa como um beijo seco e disse em sena: "chiropa", sim aí estava o sangue que ia soltando a Pala Pala, cada vez era mais. Era um sangue côr de rosa com borbulhas, tinha dado um tiro nos pulmôes. Caminhamos uns 5o metros mais lá estava a Palanca Negra no châo exalando o seu último suspiro.
Aproximámo-nos ao animal por trás e Oh surpresa era uma animal fantástico, mediu quase 46 Polegadas, faltava-lhe 1/4 para chegar às 46" era o que nós chamávamos "um monstro".
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Este Pit sim tinha sorte. Cada animal que caçava era o que nós na giria dos caçadores chamávamos "record class" Durante alguns dias continuámos o nosso safari, tentanto conseguir os melhores trofeus possíveis.
Todas as noites do meu quarto eu falava com os outros acampamento e especialmente com Sá da Bandeira, para ver como "iam as coisas" com a "transiçâo e entrega do território aos novos angolanos". Tinha estado a falar com o comandante do destacamento que estava do outro lado do rio e ele disse-me que em poucas semanas abandonariam o lugar para dirigir-se a Serpa Pinto e serem embarcados para Luanda de regresso a Portugal. Isso sim deu-me muito medo, e uma incerteza no meu futuro, que algumas vezes apesar do cansaço, nâo me deixava dormir.
Tínhamos que cumprir com os compromissos adquiridos com os nosso clientes e agentes. Somente pedia a Deus que me deixasse terminar esses safaris que tínhamos contratados, para no ano seguinte decidir o que faríamos com a nossa vida.

Continuarei..

Victor "Hunter"

terça-feira, outubro 03, 2006

RETALHOS DAS MINHAS MEMÓRIAS 11

Creio que todos os caçadores guias tiveram como eu, clientes que repetiram safaris ano atrás ano; alguns seguidos outros de dois em dois ano, e alguns que repetiram duas ou três vezes.

Eu tive a sorte de ter varios, especialmente de Espanha, varios casais que todos os anos as suas férias de Julho ou Agosto era para passar em África caçando e gozando das nossas praias e comidas. Era o caso dos bons amigos catalans Rosa e Federico Segura, Carmen e Amadeo Torrens, Maria e Enrique Jofre, Pilar e Jaime Mercader, estes da área de Barcelona e com quem até hoje mantenho contacto telefónico. Havia dois de Madrid, que infelizmente já nâo estâo conosco, que era o Arq. Fernando Moreno Barberá, e o meu quase irmâo Carlos Arrate Mendizabal.
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Carlos e eu éramos uns amigos incondicionais, degraçadamente um cancro de pulmâo matou-o, quando ele fez 49 anos.

Depois desta foto, nesse ano, Carlos foi operado e tiraram-lhe um pulmâo, acabando por morrer três anos depois. Eu estive ao seu lado, porque ele foi para mim o irmâo que nunca tive.

Havia em Sevilha o meu grande amigo Javier Mencos, Marquês de las Navas de Navarra, que mais tarde veio a ser meu tio político, pois casei com uma sobrinha sua. Esse repetia todos os anos, e até deixava parte da sua equipagem de caçador em minha casa para nâo ter que andar a carregar as coisas ano com ano.

Depois um grande amigo americano, Pit Sanders, que ia aonde eu estivesse e, fazia um safari cada dois anos, tambem Robert Eastman, nos seguia a todos os lados de África onde caçasse-mos. Houve muitos e se tivesse que mencionar a todos teria que escrever toda uma pagina para isso.

Pois aqui vou falar de Pit Sanders intercalando alguma das velhas fotos que ainda conservo. Com Pit fomos à Espinheira uns dias, logo que ele desembarcou em Sá da Bandeira. Eu tinha estado convidado na sua casa de Massillon, Ohio, e ele conserva até hoje os trofeus que o seu pai caçou e, aí vai juntando os adquiridos por ele. Sabia que ele queria um bom kudo do deserto, um klipspriger, aquele animalzinho que anda nas pedras, e uma impala de cara preta, mas infelizmente nâo se poude, porque tinham prohibido a caça a esse animal em Angola.No primeiro dia, caçamos uns springbucks para a cozinha e para deixar posto uma isca para o Hernani Espinha, que nuns dias viria com um cliente a caçar uma semana à Espìnheira.

Saímos uma manhà e fomos em direcçâo à serra que se via ao longe e para o lado do Rio Curoca, quando menos esperávamos o guia que sempre levava o do burro que encontrei nas dunas mostrou-me um bonito klipspringer, no alto de umas rochas, olhando para nós.

Sentía-se seguro na altura que estava. Para Pit era um tiro de precisâo, e eu como o conhecia, disse-lhe aí está o teu Klipspringer, queres tentar um tiro daqui? Sào mais de 250 metros, talvez 300. Pit Baixou-se do Toyota, e apoiando-se nas barras do rollover apontou a sua 270 Remington Magnum e vio espremer muito devagar a mâo e o dedo ao mesmo tempo e tiro que saiu e klipspringer morto. Ficou no alto da rocha. Foi necessário mandar os ajudantes subir até lá, o que demorou mais de meia hora, para poderem trazer-nos o trofeu.
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Era um record, pelo qual Pit no ano seguinte recebeu uma medalha do Safari Club International.

Buscámos e encontrámos vários kudos, mas nenhum que víamos era o que eu chamo interessante para a qualidade de caçador que é Pit. Saíamos muito cedo, antes do nascer do sol para ver se encontrávamos o grande, que buscávamos. Um dia chegámos quase à estrada que vai de Moçâmedes para Sá da Bandeira, lugar onde havia uma grande quinta que se dedicava a criar os borregos “caracul” que mais tarde ao fazerem os casacos para as senhoras, perdem o nome para chamarem-lhe “astracan”, os tais borregos que matam logo que nasce, e que chamam tambem “non-natos”.
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Demos a volta para regressar ao acampamento, e derrepente no meio de umas espinheiras, a uns 4 ou 5 kilómetros da quinta, vimos aquele kudo, estático, no meio de umas espinheiras, que se nâo fosse pelos olhos treinados que temos de tantos anos andar nisto, passaria despercebido. Mostrei-o a Pit e evidentemente um tiro e Kudo morto. Este Pit raramente falhava um tiro. Era dos bons.

O que tínhamos vindo fazer ao deserto, estava terminado, agora era tempo para regressar a Sá da Bandeira para que em dois dias voássemos às “terras do fim do mundo”, para continuar o nosso safari.

Victor “Hunter”


Nota: Estas fotos têm muitos anos e estâo em albuns velhos. A qualidade da fotografia nâo é boa, mas é o melhor que posso fazer.