sábado, outubro 06, 2007

Pescando em águas africanas

Escrevi várias histórias de caça, de caçadores, de safaris fotográficos; o que nunca tinha contado eram histórias de pesca, e de pescadores.

Dizia o meu avô, que três caçadores e três pescadores faziam meia dúzia de mentirosos e, para não perder a tradição, vamos lá com umas histórias de pesca.

Para alguns como eu é um desporto fabuloso, o qual pratiquei desde muito miúdo. Ia com o meu pai a pescar nas águas da baía do Lobito, fui pescar muitas vezes, numas praias desertas de Benguela.

Também acompanhei o meu avô a pescar barbos, carpas e bogas no Rio Mondego, quase na base da Serra da Estrela, antes de começar a subir para Seia, pesquei no Rio Dão, entre Mangualde e Viseu, e também abaixo das termas de Alcafache, onde ia todos os anos com a minha avó e, no Atlântico quando passávamos algumas férias na Figueira da Foz.

Havia um senhor amigo da minha família, que era dono de umas traineiras, que tinha base em Buarcos e, uma vez convidaram-me a pescar toda uma noite no Atlântico. Isto tudo quando era um miúdo, até aos meus 15 anos. Eu fascinado com a minha aventura marinheira; já podia contar aos colegas do Colégio, aquela viagem de pesca, que me enchia de orgulho, que poucos podiam fazer.

Depois comecei a estender o meu gosto pela pesca para outras águas.

As águas de África

Quando era miúdo uns 10 aninhos, ia para a ponte que dividia a cidade do Lobito com o Bairro da Caponte, e aí numa loja que estava no cruzamento da estrada da Caponte com a que ia para a Sanzala, estou a falar dos anos 1952/3, comprava uma “quinhenta” de fio e uma “quinhenta”, (cinquenta centavos de angolar), de anzóis. Levava comigo o meu “secretário” que era um miúdo negro, filho da nossa lavadeira Josefina, que me acompanhava em todas as minhas “aventuras”. Ele era o encarregado de baixar ao lodo do mangal e desenterrar umas amêijoas que se chamavam “cucula”, que nos servia de isca para por nos anzóis. Muitas garoupas pequenas e outros peixes da pedra, pesquei aí debaixo dessa ponte. Esperava que subisse a maré e então sim era pescar à grande. A tarde de pesca terminava quando se acabavam todos os anzóis, (3) que ficavam presos nas pedras. Chegava eu ufano a casa, e dizia à minha mãe que queria comer do meu peixe.

Em Angola, já depois de homem, pesquei em muitos lugares dessa ex-colónia portuguesa. Nas águas de Moçâmedes. Na foz do Cunene, em Porto Alexandre; pesquei no Rio Cuito, grande afluente do Cubango ou Okavango, onde há uma grande quantidade de peixe Tigre, mesmo em frente a um acampamento de safaris que tínhamos num lugar chamado Chipuizi. Também fiz uma viagem a um paraíso para os pescadores, que é a foz do Rio Longa, que fica situado a duas horas e meia em carro de Luanda a capital.

É um sítio privilegiado, pois à parte de ser um lugar maravilhoso, o rio limita a fronteira Sul do Parque da Quissama, onde antigamente havia numerosos animais, que com a guerra civil foram exterminados.

Graças a W.C.F. hoje já há 22 elefantes que foram doados pelo Botswana e transportados pela organização World Conservation Found em avião. Dizem que das centenas de leões que antes havia, agora conseguiram contar somente cinco.

Um pequeno parágrafo se me permitem, pois às vezes ponho-me furioso com as “coisas de África”. O World Conservation Found, não levou mais elefantes para a Quissama, porque segundo o que li, os fundos assegurados pela organização a essa reserva, se tinham terminado, porque os aviões de carga para transportar os elefantes são extremamente caros e, como todos sabemos, esta organização vive de doações filantrópicas.

Sabiam que o Senhor Presidente de Angola, no casamento da filha, segundo dizem os jornais, gastou mais de 3 milhões de dólares na pequena festa que deu, não contando com as compras feitas em Paris etc. etc. e pela “menina” e pela mãe da “menina”.

Ai Quissama, que bem te vinham esses milhões de dólares para ajudar-te a recuperar o que os compinchas do Sr. Presidente exterminaram.

É como tudo, antes bebiam “quissangua” (bebida fermentada como o pombe de Moçambique), hoje não podem passar sem um Chivas Regal de 12 anos. Ah! Como muda tudo. Lembro-me que o meu avô Cabral dizia que isso, era a desgraça de ter novos-ricos a guiarem o destino de uma nação.

Mas estamos a falar de pesca e, que bom, porque os peixes não se podem matar com as Kalaishnikovs que usaram os malditos furtivos e pseudo-militares (antes terroristas), para exterminar a fauna africana.

Na foz do Rio Longa, mesmo em frente ao lugar onde desagua, existe uma ilha, onde há um acampamento ou Lodge, para que uma pessoa possa ir aí pescar confortavelmente.

Essa ilha, rodeada pela água fresca do rio, está literalmente a poucos metros do Oceano Atlântico, estando protegida por uma barreira de areia que forma uma parede entre o rio e o mar.

Esta rara união entre água doce e água salgada, criou um ecossistema que é único, que reboça com uma grande variedade de vida natural. Águias pescadoras e gaivotas, embondeiros e mangais, crocodilos e tubarões, todos coexistem numa harmonia natural, na sua diferença e variedade.

Trinta anos de ausência humana neste lugar, devido a guerras e medo de andar por essas paragens, desenvolveu uma enorme quantidade de vida marinha, que está sem explorar, esperando unicamente algum aventureiro e pescador desportivo.

A partir do acampamento que tem todas as facilidades, tanto em barcos como em artefactos de pesca, pode-se pescar uma quantidade enorme de espécies, tanto no rio como no mar.

Na pesca do alto, pode-se conseguir marlin, peixe vela, barracuda e dourado.

Neste momento para essa pesca usa-se um barco, “sky-craft “de 26 pés.

Na costa há de todas as espécies, tanto garoupas como pargos e muitas mais espécies. No rio pode-se pescar o famoso “tarpoon” que é um dos peixes de água doce que mais luta dá ao pescador desportivo.

Apanhar uma garoupa de 30 ou 40 quilos é um prazer, que para mim é igual ou maior, que caçar um bom elefante com grandes pontas.

G aroupas como a que se vê na foto, não é o privilégio de um dia, não, há muitas nessa costa à espera de que alguém que goste deste desporto as vá lá sacar das profundidades onde habitam.

Eu na minha vida pesquei algumas, mas somente existem velhas fotografias, que não são realmente boas, mas que servem para ilustrar esta página e mostrar aos que gostam deste género de pesca, a abundância que existe ainda nessas paragens.

Havia dias que com sorte podíamos pescar uma boa dúzia delas.

Também mais ao Sul, no que se chama ainda hoje a praia da Lucira, e do Chapeu Armado, se podem pescar igualmente uma boa quantidade de peixes, pois nesse lugar há uma espécie de parede de rocha, que está numa fossa do Oceano Atlântico, em que os peixes grandes andam a uma pequena profundidade alimentando-se.

Para ir pescar a esses lugares, eu sempre levava comigo o meu acampamento e acampava na praia, que é belíssima. Aí pescávamos, mas preferíamos mergulhar conseguindo assim melhores troféus com o arpão ou com as “havaianas”, reservando a pesca com cana para as tardes quando fazia mais vento.

Há algumas velhas fotografias que quero por nestas páginas de companheiros e amigos que nos acompanhavam nessas aventuras de mergulhar e pescar.

Aquelas praias, ainda hoje são um lugar tranquilo, para poder passar três ou quatro diascom a família, com os filhos para ensiná-los a amar esse desporto e assim mantê-los longe das drogas e vícios tão espalhados hoje pela nossa juventude.

Aparte de pescar, era o convívio que tínhamos e, a amizade que se forjou, até aos dias de hoje.

Durante os anos que passei em África, um dos lugares onde eu gozava enormemente com a pesca era em Moçambique, colónia portuguesa, onde vivi mais de 25 anos.

Para mim, o Oceano Índico, era mais calmo que o Atlântico, mais benevolente, com a temperatura das aguas mais cálidas, mais atractivo, mais romântico. Os entardeceres eram diferentes dos da costa Oeste, porque os do Índico tinham algo do misterioso Oriente o qual era banhado pelas suas águas.

O Atlântico tem o cheiro a iodo das algas de águas frias, o Indico para mim é mais quente, mais saboroso e tinha um cheiro a espécies o qual não tinha o mar do Ocidente.

Sabemos que as costas do Atlântico são mais ricas em peixes comerciais, mas eu preferia as costas orientais porque aí estavam os corais, de todas as cores e feitios, estavam muito mais espécies de peixes policromáticos, e ainda que não se pescasse tanto como na costa oriental, também gozávamos com a pesca se sabíamos como fazê-la e os lugares onde ir. Alguns até os guardavam como o nosso “segredo” e, nunca dizíamos a ninguém onde era o nosso lugar favorito.

Mas continuando com as nossas andanças pelas águas de África.

Pesquei na Beira, no Rio Sengo, no Rio Savane e no Rio Maria. (foto com garoupa ao de 1965). Muitas vezes foram as minhas viagens à Ilha de Santa Carolina, acompanhando algum cliente de safari que também como eu, gostava de pescar.

Pesquei alguns marlins azuis, muitas barracudas, peixes serra, xaréus, garoupas e quase todas as espécies que tinham como habitat o Canal de Moçambique.

Alguma vez resolvia ir passar uns dias às Ilhas do Paraíso, a Santa Carolina, que naquele tempo era dum bom amigo, o Sr. Joaquim Alves, que estava casado com a Sra. D. Ana, e que era a bondade personificada, (lembram-se do molho de piripiri, que se vendia na Beira com a marca dela, D. Ana?). Era um casal agradável e ainda que tivessem muito dinheiro, agradeciam sempre que nós os caçadores-guias levássemos alguns dos nossos clientes a pescar na sua organização, o que a mi me valia um desconto de mais de 50% quando eu ia sozinho pescar por minha conta.

Contava sempre com um skyboat para poder ir pescar ao canal de Moçambique, morada dos grandes marlines, dos peixes vela, dos grandes tubarões e muitas barracudas e bonitos.

Ás vezes ia sozinho, mas a maioria das vezes ia acompanhado com a pessoa “de turno” que vivia comigo naquele tempo. Ou seja alguma das namoradas e esposas que tive.

Não digo para ufanar-me de ter tido algumas esposas, mas o destino, nisso não foi muito benevolente comigo que se diga.

Pois bem chegávamos à ilha e sempre que podia me davam o mesmo bungallow, porque a mim não me gostava muito o hotel, pois naqueles dias já a sua arquitectura era terrivelmente feia. Preferia as Casitas da praia onde tinha mais liberdade e estava mais a meu gosto.

Pescávamos durante vários dias das 5.30 da manha até às 4 da tarde, e à noite sentávamo-nos no bar do hotel, com um bom whisky em frente a comentar o nosso dia de pesca, e como sempre: “aquele peixe que picou e que se nos foi, era sempre o maior que tínhamos visto”. Coisas de pescadores.

Tenho fotos desse tempo, que estão meias apagadas e que não há forma de poder arranjá-las mas aqui vão um par delas, para que o leitor ou leitora, se de conta das possibilidades que tinham aquelas paragens para pescar peixes de grande porte e peso.

Pescava bonitos, aí sempre me acompanhava o mesmo “patrão” que era um negro do Sul do Save, que conhecia aquelas águas como a sua mão, levou-me alguma vez a lugares que era por a linha na água e sacar peixes.

Com ele pesquei alguns marlins, que ainda que não tenham sido recordes do mundo eram dignos de figurar em muitas salas de troféus. A foto seguinte é de um marlin pescado naqueles tempo e a senhora que está na foto é a Sra. Loli Zunzunegui de Madrid, famosa dona de uma loja

De roupa que esteve muito de moda nos anos 70’s, as “ZZZ” (Três Zetas), que era uma boa amiga e gostava imenso de pescar.

Durante 20 anos fui varias vezes à Santa Carolina e sempre trazia de lá boas recordações, tanto da gente como das paisagens e dos por de Sol que a natureza nos brindava todas as tardes naquelas paradisíacas ilhas.

Que recordações Deus meu... como diz a canção: “Ó tempo volta para trás...”

Já me pus nostálgico a lembrar-me daqueles tempos, em que um tinha a juventude à flor da pele, que queria comer o mundo, que fazia planos novos todos os dias. Queríamos viajar pelo mundo, conhecer mais gente interessante, aprender de todos e de tudo. Isso era a juventude dos vinte e tantos anos.

Fizemos quase tudo os que nos propusemos, e finalmente um dia, tivemos que “assentar cabeça “, e parar daquelas viagens prolongadas que fazíamos.

Conhecemos o mundo, conhecemos gente, tivemos grandes alegrias e também grandes decepções, mas tudo isso veio a contribuir, para formar-nos e transformar-nos na pessoa que somos hoje. Somos mais tranquilos, mais observadores. Já não corremos, e o que tínhamos que fazer está feito, agora temos as recordações dos bons tempos, e desfrutamos ver crescer os netos, estar com a família e gozar da companhia dos amigos que nos visitam e que como vocês gostam de “escutar” historias africanas.

Nas grandes lagoas e rios do Delta do Zambeze em Marromeu, pesquei muitos “messopos” e outras espécies que agora não me lembro o nome.

Fui algumas vezes acompanhando o meu amigo, o saudoso, Alberto Araújo, pescar ao Lago Kariba na Rhodésia. Aí pescámos a maior espécie do maior cat-fish que há em África, o Vumbi, e muitos Peixes Tigre, que para mim são os maiores lutadores de todos os peixes de água doce que eu conheço.

Com o tamanho que tem rompem linhas e algumas vezes até canas de pesca. Se houvesse um peixe Tigre do tamanho de um marlin azul, por exemplo, creio que muitos poucos pescadores teriam esse troféu em seu haver. Saltam fora de água várias vezes o seu tamanho, com os afiados dentes, tentam romper as linhas, fazem tudo para poder soltar-se com uma força incrível. Com o “tarpoon”, são os dois peixes mais importantes das águas interiores africanas.

Muitos clientes nossos de safaris, quando ouviam falar do grande lutador que era o peixe tigre, tratavam de que nós, como organização de safaris, lhes preparássemos uma expedição de pesca a lugares onde pudessem dar “caça” ao esse tão cobiçado troféu de água doce.

Durante os meus anos de guia, vi algumas senhoras apanharem peixes desses e dar-lhe luta até conseguir traze-los ao barco. Sentiam-se orgulhosas depois de conseguir o tão cobiçado troféu. Para os clientes pescar um peixe tigre grande era o mesmo que caçar algum dos bons troféus que existem em África.

Passei dias a pescar na barragem da Chicamba Real, formada pelo Rio Revué, que é um dos grandes afluentes do Rio Save, aí a especialidade eram as grandes tilápias que naquele tempo que eu ia a esse lugar, tinha que fazer um acampamento ao lago do lago para poder ficar aí alguns dias nessa expedição de pesca.

A Chicamba Real, está situada a 45 quilómetros de Vila Pery, hoje Chimoio, e chegava-se lá por uma boa estrada. Ao sair de Vila Pery andávamos por uma estrada asfaltada até ao cruzamento da Chicamba e depois era uma estrada de terra batida que naquele tempo se encontrava em muito boas condições.

Era uma delícia passar alguns dias naquele lugar, e ir percorrendo com o barco, as muitas ilhas que se tinham formado, ao subir as águas do rio transformando-se no lago que é hoje a Chicamba Real.

Mar, rios e lagoas, serviam sempre para praticar o desporto da pesca que eu tanto gosto. Em qualquer tempo, não interessava nem as horas nem o lugar, se havia água aí estava eu

A lançar a linha com alguma cana que sempre me acompanhava nas minhas viagens e caçadas.

Com os pescadores de varias latitudes, fui aprendendo truques: que isca usar para este e para aquele peixe, qual era a melhor colher para o peixe tigre, a que profundidade devia “trolear” para as serras, barracudas e marlines. Fui aprendendo a “cebar” as águas quando um necessitava de atrair os peixes, e muita artimanha, muitas vezes não muito ortodoxas. Com a gente que vivia nas margens do Okavango, aprendi a fazer cestas cónicas, que eram as armadilhas perfeitas para agarrar os grandes peixes durante a noite nas lagoas e rios.

Aprendemos a por também cestas para as lagostas quando íamos pescar ao distrito de Moçamedes em Angola. Aprendemos a usar uns cântaros velhos que comprávamos muito baratos aos pretos, para por em lugares estratégicos e assim apanhar os polvos que se alojavam dentro deles.

Durante todos aqueles anos, tivemos tempo para aprender muita coisa, que agora tento ensinar aos dois netos que tenho.

O meu filho, esse é hoje já um especialista mergulhador em águas abertas e profundas. Já está certificado por PADI, espero que tenha aprendido muitas das coisas de que eu lhe expliquei sobre os muitos truques de pesca.

Falta falar de um dos lugares mais belos do Oceano Indico para pescar. Se podem, vão algum dia visitar esse arquipélago que são as Seicheles.

Aí o mar tem outra cor, tem uma fascinação que nos atrai. É o mar dos nossos sonhos de criança, é um mar tranquilo quase sempre, é o mar que dá prazer estar a olhar para ele, pois é como se fosse o espelho do Céu.

Era o mar que rodeia as ilhas, que se havia um paraíso terrenal, creio que seria assim, como são essas ilhas. Gente fascinante, gente bonita como dizia um amigo, e especialmente as mulheres, que parecem deusas saídas de algum quadro da Índia mitológica, que estavam aí para fazer-nos sonhar com paixões desenfreadas, que faziam a nossa vida mais agradável, pois naqueles tempos em que um tem vinte anos, apaixona-se perdidamente, umas quantas vezes ao ano.

Aí, há muitos anos pescámos marlins, peixes vela, atuns que os havia aos milhares, mas infelizmente as fotos que tinha preto e branco, ficaram numa casa que tinha em Angola e aí perderam-se para sempre, assim que fui buscar algumas para mostrar-lhes o bonito que são aquelas águas e aquelas ilhas.

Um dos mares mais bonitos do Mundo segundo o falecido comandante Cousteau, era o mar Vermelho, The Red Sea.

Desde o Egipto, até ao Sudão, este mar, banhando o Norte das costas de Etiópia, é sem dúvida um lugar único no mundo. Tem espécies belíssimas que somente se encontram nesse lugar.

Durante quase os 8 anos que cacei no Sudão, tive oportunidade de ir a Port Sudan e especialmente à Ilha de Suakim, onde o tempo parece que parou. Tenho um velho amigo árabe, o capitão Abdel Arrhim, que no tempo que eu visitei essa lugar era o comandante de uma “sconner” que levava turistas a mergulhar e a pescar nos infinitos bancos de coral que existem naquele lugar, com quem passei largos dias, mas isso fica para contar-lhes noutra ocasião porque podemos dedicar vários capítulos à pesca no Mar Vermelho a também nas Caraíbas que banha a República Mexicana, país onde resido desde que abandonei África.

Bem amigos e amigas, estas contos de pesca, acabaram-se por hoje, irei para a cama, contente porque pude contar-lhes algumas histórias da pesca que fiz naquela África que tanto amo.

Para vocês que não a conhecem, tentem ir e verão que não se arrependem e para os que como eu conhecemos, a vida nunca foi igual desde que a deixámos.

Mexico-Outubro de 2006

terça-feira, setembro 25, 2007

RETALHOS DAS MINHAS MEMÓRIAS -SUDÂO (8) Fim dos safaris em Sudâo.

Um dos safaris que fiz na Floresta Equatorial, foi com os meus grandes amigos, Rosa e Federico Segura.
Este casal tinha caçado muitas vezes comigo em Moçambique, em Angola e agora no Sudão.
Chegaram a Juba via Roma, Khartoum, Juba. Eu estava esperando-os no aeroporto, para ajuda-los com as malas e leva-los ao Lodge, para preparar-nos para voar a Yambio.
Com eles vinha também um casal, com quem eu também tinha caçado em Moçambique, a Maria e Enrique Jofre, acompanhava-os a sua filha Ivone, que era a primeira vez que vinha a África. Eles caçariam com o Noel a partir do mesmo acampamento em que caçaria eu.
Rosa chamou-me de lado e informou-me que Federico tinha tido um ligeiro enfarto, e que não queria que ele se cansasse. Eu prometi-lhe que faria o possível, porque me importava muito a saúde do meu amigo, que foi um homem chave na minha mudança de Moçambique para Angola, ajudando-me financeiramente, pois eu tinha perdido muito, ficando somente com os carros. Também o grupo de amigos de Barcelona, e um outro grupo de Sevilha, tinha posto à minha disposição uma quantidade bastante grande de dinheiro, para que eu usasse, para organizar outra vez os safaris. Isso que fizeram ficou gravado na minha alma e somente lhes posso pagar ligeiramente, com a amizade incondicional, que lhes tenho há tantos anos, aparte de liquidar aquilo que me tinham emprestado. Por isso falamos muitas vezes por telefone. Federico e Enrique, tem agora mais de 80 anos e Federico continua a fazer as suas viagens a África ( Zâmbia ), onde tem um filho que tem um luxuoso acampamento, não para caçar, mas para levar safaris fotográficos. Claro que sempre me convidam a ir passar temporadas com eles. Qualquer dia lá estarei.
Continuando.
Saímos da Juba na manhã seguinte para Yambio onde chegámos uma hora depois, usando o último aviâo que eu tinha comprado, que era um Piper-Aztec de 6 lugares e bi-motor, e no qual tive que viajar para levá-lo de Halifax, Nova Escócia até a Juba, passado pelo Círculo Polar Ártico, mas isso é outra história.
O Noel tinha ido adiante no dia seguinte, pois ele sempre caçava na savana, para levar o jeep e o pessoal.
Ao chegar, fomos ao Departamento de Caça, como sempre fazíamos a registar-nos.
Chegámos ao acampamento e veio um dos meus pisteiros o Hassan a dizer-me que os bongos estavam a ir todas as noites a uma "salina" que nâo estava nada longe do nosso acampamento.
John o meu outro pisteiro, "emprestei-o" ao Noel, porque ele nâo conhecia a área e eu queria que ele, tivesse um bom guia para poder fazer um bom safari com os meus amigos.
Na manha seguinte, disse ao Noel que fosse a essa salina para ver se encontrava o bongo e somente lhe disse que seguisse as instruções do John que sabia muito dessa espécie de caçada.
Noel era um bom caçador, mas a floresta fechada, dava-lhe claustrofobia, segundo ele e, então trocávamos de clientes. Ele fazia uma parte na savana e mandava-me os clientes para a Floresta, onde eu caçava os elefantes, bongos e também a parte dos pântanos.
Saímos vários dias e não conseguíamos caçar nenhum bongo, até que uma manhâ eu ía adiante por um carreiro, que me levava a uma dessas salinas que mencionei, e vi umas pegadas de bongo grande e começámos a seguilas muito devagar. Pelo excremento podíamos ver que ia adiante de nós e não estava longe. Pedi a Rosa, que viesse para o meu lado e que levasse a 375 preparada, para o que se avistássemos o bongo, ela disparasse rápido.
Uma das razões porque usávamos armas pesadas na floresta para os bongos, era porque num dos primeiros safaris, o meu bom amigo Alfonso de Urquijo, levava uma arma de calibre pequeno e duas vezes atirou aos bongos e falhou, e vimos que a bala ao encontrar na trajectória uma pequeníssima rama, tinha as duas vezes desviado o tiro. A partir daí, aprendi a lição e pedia aos meus clientes que atirassem com pelo menos 375.
Seguimos muito devagar nas pegadas do bongo e à entrada de uma floresta vimos um belo animal, com uns bonitos cornos e um grande troféu.
A Rosa apoiou-se no meu ombro e disparou. O bongo correu, mas eu vi que estava ferido de morte. Caiu uns 50 metros dentro da floresta.
Arrastámos o animal para fora para poder tirar a foto que aqui ponho, onde estava a Rosa e eu. Esta mulher era uma grande caçadora.
Passaram-se dias em que caminhámos muitas vezes atrás dos elefantes sem ver nenhum que nos gostasse, até que Hassan, veio um dia e disse-me que fossemos à floresta do Rio Sue, porque lhe tinham dito que lá havia muitos elefantes.
Fomos até a uma povoação e encontrámos uns homens que nos disseram que os elefantes estavam na parte mais fechada do Rio Sue.
Dirigimo-nos para lá, e a floresta começou a ser das mais densas onde eu tinha caçado até aquele momento. Numa clareira da floresta encontrámos a tumba de um dos grandes chefes Azandes daquela área. os elefantes tinham passado por aquele lugar.
(na foto: Rosa, Hassan e eu)
Hassan, disse-me que queria pedir ao espírito do chefe que nos desse sorte e falou por um buraco da tumba que era como uma construção de pedra e cimento, algo que nâo entendi.
Continuámos até que ouvimos os elefantes na floresta mais fechada daquele lugar. Nâo se via nada, tínhamos uma visão de uns 2 metros ou três nada mais. Dirigi-me na direcção do ruido dos elefantes e vi que estavam abaixo de nós, pois o declive para o rio era muito acentuado. Perguntei a Rosa se queria entrar num lugar que era perigoso. Ela disse-me: Se vais tu, eu não tenho medo. Eu sim estava "cagado" de medo, ela não sabia o que era uma carga naquela floresta, Começámos a baixar e não tínhamos dado nem dez passos, quando vi à nossa altura um elefante macho que nos estava a observar. Rosa levantou a 416 John Rigby, e eu a 577 e disse-lhe:
-Dispara.
Atirou e eu atirei também, porque aí não havia que brincar, e sentimos que o elefantes desapareceu, somente o ruido da estampida da manada.
Agarrei a Rosa pela camisa e puxei-a para trás para a parte alta, porque aí ainda que fosse densa a floresta, não era tâo fechada como abaixo.
Federico estava atrás com a sua arma na mão, quando vimos que a menos de 10 metros de nós saiu um elefante grande, que não era o típico elefante da floresta, com pontas grossas, disse-lhe atira-lhe ao "codillo", à altura do coração e ele atirou rápido sendo secundado por mim. Deixei a Rosa numa boa árvore e corri para ver o elefante cair um pouco mais adiante.
Tínhamos dobrado os elefantes num lance que nunca mais nos esqueceria por muitos anos que vivêssemos.
Fomos ver o o elefante de Rosa, tinha rolado para dentro do Rio Sue, e tinha cravado as pontas no "matope" do rio.
Tivemos que cortar muitas ramas e árvores pequenas, para poder tirar a fotografia que vos ponho aqui.
O mesmo sucedeu com o elefante de Federico. Notem a mão do homem em comparação à grossura da ponta que tinha um bocadinho partido.
Para Federico, como ele dizia, valeu mais aquela caçada que todas as que tinha feito a elefantes posteriormente.
Com esta narração no meu "portunhol", termino aqui umas poucas aventuras que fiz no Sudão, o qual tive que abandonar em 1982, por ver que a guerra civil ia começar naquele país e eu já tinha passado por duas, não queria atravessar por uma terceira.
Deixei o Sudão para nunca mais voltar.
Victor "Hunter"

RETALHOS DAS MINHAS MEMÓRIAS - SUDÂO (7)

A viagem para a província de Bahar-el-Gazzal, foi uma viagem de bastante cansaço porque a estrada de Yambio a Wau, que é a capital, estava em bastante mal estado e em varios quilómetros. o que nos obrigava a manter uma velocidade que não era constante e por isso demorámos mais do que esperávamos. Chegámos a Wau perto das três da tarde e dirigimo-nos ao Departamento de Caça, para registar-nos. onde o chefe do Departamento de Caça, nos convidou a tomar um chá, com a consequente conversação sobre o que passava em Juba donde ele era originário. Arrancámos uma meia hora depois em direcçâo ao acampamento, onde chegámos duas horas depois. Já era quase noite quando chegámos ao nosso destino.
Tonj está situado ao lado do rio do mesmo nome. Somente os que conhecem bem essa área, podem dizer qual é o rio, pois há uma quantidade enorme, pois há uma quantidade enorme de braços que formam os pântanos do Rio Bahar-el-Gazzal (rio das gazelas), do qual o Rio Tonj é um afluente.
Aí metidos dentro dos pântanos, há uma quantidade imensa de Nile Lechwees ou Mrs. Grey's Lechwees. Na parte seca, ou seja, fora dos pântanos abundam os Uganda kobs, os roans, e bastantes búfalos, assim como varios outros como os, rinocerontes brancos (agora extintos).
Nesse lugar é dos poucos lugares onde se pode ver ainda o pássaro tâo raro que é o Shoe Bill (bico de sapato), que está protegido e é um dos símbolos do Sul do Sudão.
Aí é uma região dominada pela tribo DINKA. Têm as suas palhotas do tempo seco, numas partes altas do pântano, para onde levam o seu gado. Quando as águas do rio começam a subir, durante a época das chuvas, eles retiram-se para terras mais altas a procurar melhores pastos.
É uma raça de guerreiros. Podia estar aqui horas a escrever sobre o que aprendi sobre esta tribú, para isso necessitaria de escrever um livro sobre eles.
Sâo pessoas que não querem saber nada da civilização. Não gostam de andar vestidos com roupas, nem árabes nem europeias. Às vezes são obrigados a fazê-lo para poder entrar em alguma povoação, onde árabes e autoridades não admitem que andem nus.
Como se Ve`o guerreiro da foto, eles usam uma espécie de faixa de contas bem apertadas à volta do estômago. Adoram dançar, e as danças deles sao muito parecidas às dos Massai do Kenia e Tanzânia. Dão saltos muito altos, e quanto mais altos melhores bailarinos os consideram entre eles. Era natural encontrar dinkas com mais de dois metros de altura. Têm um conhecimento sobre o gado, somente comparado com os Massai e os Himbas da Namibia. Estão tão dedicados à sua manada, que podem reconhecer um por um, todas as suas rezes, não importando a quantidade que ela tenha.
Quando um Dinka chega aos 10 anos, o pai oferece-lhe um boi, que é o começo da manada que ele formará e terá durante a sua vida. O pequeno fala com ele, trata-o com carinho , e considera-o uma parte importante da sua família. Enfeita-lhe os cornos e às vezes pinta com argila desenhos na pele do seu boi. Muitas vezes, durante a sua vida, quando tem que tomar alguma decisão importante, consulta o seu boi, que considera como um bom conselheiro e um bom "totem".
Este miúdo, preferiria morrer de fome, do que pensart em matar aquele boi, que para ele é sagrado. Poderá matar outros, pois vende e troca animais, mas nunca o boi que foi o princípio da sua vida.
As mulheres Dinkas são de uma beleza fisíca impressionante. A cara, não, pois têm o que para nós é um defeito genético, que é ter os dente superiores apontando para diante. Mas o corpo...parecem deusas a sair das águas do rio. Altas, e com um corpo escultural, com uma pele que somente as negras podem ter.. São de um negro tão negro, que parece negro azulado. Para comprar uma daquelas belezas , o "noivo" terá que pagar ao pai da donzela mais de 50 cabeças de gado, e às vezes mais, por isso os Dinkas casam-se tarde, pois necessitam muito tempo para juntar tantas cabeças. Já depois virão as filhas, para que ele possa receber dos "genros", as rezes que vão aumentar a sua manada.
Isto que escrevi sobre os Dinkas, é muito pouco, nas minhas memórias, dedico todo um capítulo, e outros aos Nuers e Shiluks que sâo também como os Dinkas tribos "nilóticas".
Na manhâ seguinte, Pitt e eu fomos dar uma volta para caçar alguma coisa para a despensa, e para dar de comer carne ao pessoal que há muito nâo a comia. Encontrámos um bom roan, que foi fazer parte dos troféus de Pitt.
Regressámos ao acampamento e descansámos da viagem de Yambio a Tonj, que nos tinha bastante cansados.
Às 5 da manhâ, estávamos já a tomar o nosso "matabicho", que quase sempre consistia em ovos, bacon e porridge (flocos de aveia), porque nesse dia teríamos que caminhar pelos pântanos para poder caçar os Nile Lechwees. O guia, um Dinka que quase sempre me acompanhava nesse lugar, disse-me que sabia onde andavam os Lechwees, e metemo-nos no Toyota, bordejando o pântano, até que o homem nos mandou parar e daí seguiríamos a pé. O John meu pisteiro, levava a arma do Pitt e eu somente os binóculos. Os outros pisteiros, levavam a nossa água, porque seria uma loucura tentar beber água daqueles pântanos.
Começámos a caminhar, primeiro sobre um colchão de plantas aquáticas. Conforme íamos avançando, o chão começava a tornar-se mais húmido, e o nosso calçado começou a molhar-se. Levávamos as calças dentro das peúgas porque no safari anterior eu tinha apanhado um montão de sanguessugas, e não queria que nos passasse igual. Seguimos assim mais de uma hora, até que tivemos que atravessar um braço mais profundo onde a água nos chegava até à cintura; passámos e começamos a sentir o terreno mais duro e mais seco. O sol queimava, e o vapor de água que saía do pântano, fazia-nos suar muitíssimo.
depois de talvez duas horas de caminho, vimos ao longe uma grande manada de Mrs. Grey's Lechwees. Eram mais de mil daqueles animais. Caminhámos em direcção à manada, dando um grande volta para poder estar contra o vento, para poder aproximar-nos aos animais sem ser vistos. Tratámos de aproveitar as manchas de vegetação que havia para poder camuflar-nos um pouco e chegar-lhes sem que nos vissem. Como era uma manada tão grande, pouco se movia, iam pastando na verde vegetação aquática. Chegou um momento que estaríamos a uns 180 metros da manada; ajoelhámo-nos e eu comecei a observar com os binóculos, qual era o troféu que eu queria para Pitt.
Havia um numero de machos que estavam separados da manada a um lado. Vi o que me gostou e indiquei-o a Pitt para que lhe apontasse com a lente da sua arma. Depois de tê-lo na mira, tomou um bom tempo respirando fundo e depois disparou. O Nile Lechwee, caiu sem sequer mover-se um metro do lugar onde estava. A manada começou a correr e via-a parar a um quilómetro de onde estávamos.
Tínhamos o troféu, que depois do Bongo e da Sitatunga, mais ilusão fez ao meu amigo Pitt.
Sacámos a pele e a cabeça, e John o meu pisteiro, fez com ela um embrulho que atou com umas plantas, pô-la à cabeça e seguimos para o Toyota e para o acampamento para dar-nos um bom banho.
À noite chamei pela rádio a Juba para que me mandassem o avião a Wau. O meu chauffer e pessoal seguiriam para Yambio, para James Diko, onde me esperariam uma semana que era quando começaria outro safari.
Pitt iria uns dias ao nosso acampamento de Kapoeta, que fica quase encostado à Etiópia, onde lá caçaria com o Carlos Fortunato, um Lesser Kudo e um Orix Beisa.
Assim terminou um maravilhoso safari do meu amigo Pitt Sanders, de Massillon, Ohio.
Em 5 dias chegariam os meus amigos Rosa e Federico Segura de Barcelona, (que a propósito, ainda ontem falei com eles pelo telefone), onde iríamos tentar caçar um par de bongos e um par de elefantes.
Victor "Hunter"

RETALHOS DAS MINHAS MEMÓRIAS - SUDÂO (6)

Estávamos do final da nossa estadía no acampamento de James Diko. Tínhamos que preparar-nos para fazer uma viagem até ao acampamento de Tonj, que ficava a umas 10 horas de viagem. Teríamos que passar pela cidade de Wau, apresentar-nos no Departamento de Caça, pois era uma obrigação, por lei, para que as autoridades soubessem que estaríamos a caçar na área da sua jurisdição, para poder-mos ir caçar os Mrs. Grey's Lechwees nesses pântanos, que era um dos troféus que lhe fazia mais ilusâo ter.
Pensámos em ir passar a nossa última tarde da Floresta Equatorial, sentados sobre as pedras que nos serviam de atalaia, para ver se saia alguma sitatunga. O Pitt tinha muita sorte, mas com as sitatungas parecia que se lhe "complicava a coisa."
Saímos às três da tarde e lá nos sentámos nas pedras, esperando que a tal sitatunga saísse. Eu usava uns binóculos, que até hoje conservo, uns Leitz, 8 x 35 e até hoje nâo encontrei coisa melhor para ver os animais em África. Passava as horas vendo dentro dos papiros, para ver se alguma coisa se movia. Vimos as duas fêmeas do costume e a sitatunga pequena, mas de macho nada.
Já eram as 4.30 da tarde, quando dentro dos papiros me pareceu ver que havia um dos papiros que era preto, e não amarelo ou verde como costumam ser. Apontei bem os binóculos e vi que se tinha movido uma coisa de nada. Ajustei bem as lentes e vi que era um corno de uma sitatunga que se encontrava totalmente submergida na água dentro dos papiros. Lhe disse a Pitt: "Vês aquele papiro amarelo que esta aqui em frente?" Pit via o papiro amarelo, até contou a partir de uns mais altos que aí se encontravam. "Pitt, se apontas com o teu óculo da arma, cerca de 40 polegadas, mais ou menos um metro, para a direita, há uma coisa negra que está metida na água. Esse é um corno da sitatunga." - Ele nâo podia ver, porque já eram quase as 5 da tarde e a luz estava a baixar rapidamente. Tínhamos um problema. O Pitt durante o dia via muito bem, mas com os seus óculos trifocais, era difícil para ele ver dentro dos papiros.
De repente "acendeu-se-me a lâmpada" e vi que aí ao lado das pedras havia uma pequena árvore que fazia um V muito fechado, quase juntando-se as duas ramas. Agarrei a espingarda de Pitt e disse-lhe que provavelmente a ìa arranhar um pouco. Meti e espingarda no meio da forquilha da árvore e puxei para baixo até que ficasse à altura do meu ombro e apontei para o lugar onde estava a sitatunga. As sitatungas quando estão dentro de água e dentro dos papiros nem se movem, porque se sentem protegidas e essa era um velho animal que "as devia saber todas"
Apontei bem e calculando o corpo da sitatunga, pus a rectícula do óculo em no que eu pensava que seria o coração. Disse-lhe a Pitt, vê agora onde está. O meu amigo disse-me com muita desesperação que nâo via nada. E a luz que se nos ia.
Eu nâo queria que ele se fosse sem aquela sitatunga, e disse-lhe deixa-me ver bem outra vez; não se tinha movido, e então disse-lhe, agarra a arma e sem mover nada, aperta o gatilho, encosta somente o ombro, a ver o que passa. Pitt agarrou a arma e disparou, sem mover nem um milímetro que fosse o cano que eu estava observando. Senti o tamboraço e eu estava seguro que lhe tinha dado.
A luz quase se nos foi totalmente, Tivemos que ir ao Toyota buscar umas lanternas, e o John e os outros ajudantes meteram-se à água e sacaram de lá a sitatunga que Pitt tanto queria.
Esta era uma beleza de sitatunga e tínha-se acabado a má sorte com aquele animal.
Fomos para o acampamento, onde celebrámos com um bom whisky a "aventura" da sitatunga. Sacamos as fotos respectivas, que nâo sairam muito bem por falta de luz, e nâo tínhamos flash, mas aqui deixo a foto da tal sitatunga que se nos dificultou tanto. Ficaram um pouco escuras e fomos para o acampamento, celebrar com um bom whisky a caçada da sitatunga.
No dia seguinte saímos de viagem para o acampamento de Tonj.
Victor "Hunter"

RETALHOS DAS MINHAS MEMÓRIAS - SUDÂO (5)

Como mencionei atrás, o meu acampamento de James Diko, estava na "ponta" mais ao Sul do Sudão, quase na fronteira com a Zaire, fronteira essa, que eu nunca soube onde era precisamente. Naquele tempo nâo existiam GPS, para que eu pudesse demarcar com precisão, a fronteira.
Muitas vezes andávamos atrás dos elefantes e John, o meu pisteiro, me dizia. "Aqui é o Zaire".
Eu nem me tinha dado conta de que estávamos nesse país.
Mas para que a coisa fosse "legal", conto-lhes uma brevíssima historia, de como consegui a autorização, para caçar no que é hoje Congo.
Um dia chegou ao acampamento, pela tarde, um homem e uma mulher com um bebé que trazia um bracinho todo queimado. O bebé tinha metido o braço numa panela de água a ferver, e estava muito mal. O homem perguntou-me se eu podia fazer alguma coisa por ele. Mas o que mais gostei foi que o homem falava um francês mais ou menos intendível. Contou-me como tinha sido o acidente, e tambem me contou, que ele era o CHEFE AZANDE, (Zémio) o maior daquela região tâo remota. A sua Jurisdição ia até ao Rio Uele, que passava a uns 30 quilómetros ao Sul, rio esse que mais tarde se transforma no fabuloso Ubangui-Chari, que passa pela República Centro Africana. Perguntei-lhe como "andava ele de elefantes", enquanto ia limpando as feridas que tinha o bebé, com Savlon que é uma substancia para limpar e se usava também e cirurgia.
Disse-me que havia muitos na sua zona e que se eu quisesse podia ir lá matar os que quisesse. Mais uma vez eu lhe perguntei, se não havia problema e ele comentou-me que ELE É QUE MANDAVA, porque o presidente não mandou nunca nenhuma ajuda para eles etc etc.
Terminei de vendar o bracinho do miúdo com aquelas vendas amarelas que têm uma substancia para as queimaduras, que era parte do botequim que era obrigatório trazer nos carros de safari.
Falando com o Chefe, disse-lhe que era melhor que ficasse numa das casas, dos trabalhadores com a sua mulher para que eu pudesse dar continuidade ao tratamento do miúdo, até que estivesse fora de perigo.
O homem agradeceu-me muito, John levou-o a instalar-se e eu à noite, mandei-lhe meia garrafa de rum que trazia dentro da caixa das bebidas.
Total a partir daquele momento foi um grande amigo, e ser amigo do Chefe dos Azandes, não é coisa pequena, porque segundo John , o homem era o ser supremo naquelas terras. John um dia disse-me que se havia alguma coisa grave na sua jurisdição, ele podia até mandar matar a alguém.
Depois disso, encontrar elefantes "era canja" como diziam na "nossa" terra, "lá nos Beira".
Também notei que a mulher do chefe, tinha uma tremenda papada devido à falta de iodo, pois criou bócio, doença que havia muito naquela região, por falta de sal de mar iodatado. Disse-lhe que quando viesse o avião de Juba trataria que me mandassem pastilhas de iodo para que a sua mulher as tomasse e a doença parasse aí ou talvez até curar-se. Durante os meus anos de andar em África, notei que uma pastilha que a nós somente era um paliativo, a um negro que nunca tinha tomado nada de medicamentos, fazia milagres.
Durante o safari de Pitt eu já tinha a "autorização" e um dia à noite chegaram uns homens do Chefe a dizer-me que fosse a um lugar que lá andavam muitos elefantes.
Preparámos tudo, e aí nos vamos Pitt e eu em direcção ao Zaire, por uma picada que eu tinha mandado abrir para chegar até o que eles diziam que era a fronteira.
Começámos a caminhar, mal nasceu o Sol e não tardou meia hora que ouvíssemos os elefantes barritar.
Havia uma pequena colina e vimos os elefantes abaixo a entrar numa floresta fechada que rodeava um rio.Como o veto estava às mil maravilhas, sempre soprando-nos na cara, seguimos a manada e começámos lentamente a entrar na floresta para ver se víamos o tal elefante de pontas compridas que Pitt queria para fazer a sua cama. Íamos muito devagar, vendo sempre como soprava o vento,, quando John parou e mostrou-me ao meu lado esquerdo, encostado a uma grande árvore um elefante com pontas compridas, ainda que nâo fossem tâo pesadas. Perguntei a Pitt se lhe gostavam e como a resposta foi afirmativa, preparámo-nos para atirar, porque po elefantes estava a menos de 20 metros de nós a a olhar para nós, sem saber que fazer, pois nâo podia olfatear-nos. Eu baixinho disse a Pitt, atira que eu ajudo-te. Vio-o apontar a 458 e eu apontei com a 577, ele disparou, e logo eu. Vi como o elefante recebeu o impacto daquelas duas balas poderosas e vi como levantou as duas patas dianteiras, e caiu para o lado. As pontas eram bonitas compridas , mas nâo pesavam muito; era o que Pitt queria.
Sacámos as pontas e seguimos para o Sudão sem primeiro mandar cortar a melhor carne para que fosse enviada ao meu amigo O Chefe Azande.
Cacei vários elefantes nesse lugar ao redor do Rio Uele.
É um lugar que nunca esquecerei, porque aí havia uma paz, somente quebrada por mim, com algum tiro, quando caçávamos elefantes ou bongos.
Victor "Hunter"