sábado, outubro 01, 2005

DEDICADA ÀS PESSOAS DE ANGOLA - 4

DEDICADA ÀS PESSOAS DE ANGOLA
E AOS QUE GOSTAM DE ÁFRICA
(Carta No. 4)

Nesse dia resolvemos passar a noite na Gruta. Era uma forma de prestar homenagem ao amigo Turra e ao mesmo tempo ver como era o serviço nesse lugar. Tomamos um banho, que certamente ia a ser o último que tomaríamos numa casa de banho, por uns dias, pois quando acampávamos, banhávamo-nos com um banho “ macua”, como dizem em Moçambique.
Uma lata de água e uma caneca para deitar água sobre a cabeça.
Ensaboar-se e mais agua sobre a cabeça, e assim pelo corpo todo, e fica um lavado e fresco, gastando-se pouca água dessa maneira.
Deram-nos de jantar uns bifes de cabra de leque, ou springbucks, com batatas fritas, e uma salada, que estava deliciosa. Para eles o talho não estava muito longe, pois antes de chegar à Gruta de visámos ao longe uma manda de gazelas que teria uns vinte animais.
Na manha seguinte resolvemos ir até à Pedia, onde havia um lugar no rio Curoca que tinha uma espécie de piscina de água quente e sulfurosa, que na vinha bem ao corpo depois de tanto salto nas más estradas e picadas. Diziam que era bom para o reumatismo, e para muitas doenças do fígado.
Que bom para limpar o físico dos whisky e dos “screw drivers” de vodka. Iríamos suar até que estivéssemos limpos por dentro e por fora. Também aproveitávamos para ver se sacávamos um pouco de gordura, por tanta e boa comida portuguesa.
Ah! E do vinho verde que quando havia mariscos, já não podíamos prescindir dele.
Porque será que as coisas boas fazem mal, quando chegamos depois dos 50? Não há direito.
Indo na direcção da Pediva, lembrei-me que há trinta anos atrás, encontrei neste lugar um grupo de franceses, que tinham montado um acampamento com todos os artefactos mais modernos que havia naqueles tempos. Eram empregados da companhia petroleira francesa a Total, que buscavam aqui lugares com urânio, assim me deixaram saber quando lhes perguntei que faziam naquele lugar. Eles vinham muito à gruta, e nós dávamos-lhes a carne fresca que necessitavam, pois naquele tempo caçávamos com clientes de safaris, e eles a cambio, ofereciam-nos boas garrafas de vinho francês.
Naqueles dias, ninguém pensava, nos acontecimentos que iriam a suceder uns poucos anos depois.
Uma guerra civil que durou anos e que transformou totalmente Angola, num caos, numa terra sem segurança, uns dos lugares do mundo com mais minas implantadas no seu solo, só comparado com o Afeganistão. Pelo que vejo, tardará muitos anos a voltar a ser o que era como país, se é que consegue.
Ah! Que bons tempos aqueles, andávamos caçando pelo deserto, fazíamos o que queríamos, éramos jovens com vinte e tais anos, e por cima nos pagavam principescamente para fazer o que gostávamos, imaginem, não podíamos estar numa situação melhor.
Agora não matávamos nada, já há muito que tínhamos decidido, que os animais são mais bonitos vê-los passear, nas planícies e savanas africanas, fotografá-los uma e outra vez, do que acabar com eles com um tiro para sempre.
Eram outros tempos, agora é tempo para a conservação.
Naqueles tempos matar um animal mais ou menos, não alterava para nada o balanço ecológico do lugar, hoje, depois das matanças feitas nas terras, onde foi necessário matar tanto para dar de comer a milhões de pessoas para que não morressem de fome, um só animal, faz uma falta imensa.
Por exemplo, das impalas de cara negra, ou “black faced impalas”, que existem somente nesta pequena área de Angola em que estamos agora; não temos nenhuma informação que nos possa assegurar, que ainda existem nesse aqui.
Das da Namibia, sim sabemos que existem em vários lugares, no Etosha e em várias “game farms”, e que se vão reproduzindo com um êxito cada dia maior.
Igual que mais ao Norte, o animal mais representativo de Angola, que é a Palanca Preta Gigante, ou Giant Sable, somente se sabe que: “parece que foram avistadas duas” há pouco tempo, quando esteve no lugar uma equipe do Worlds Conservation Found. Ninguém sabe ao certo se ainda existe alguma, ainda que digam que sim.
Matar um destes animais devia ser considerado um crime de lesa humanidade, porque toda a gente sabia que havia mais ou menos 3.500 exemplares destes, antes de começar a guerra civil, e ninguém, ninguém fez nada para protegê-los. Não creio que matando algum destes animais, se tenha resolvido o problema da fome que imperava naqueles dias e que ainda hoje continua.
Total, como sempre o homem vai destruindo pouco a pouco o planeta Terra, hoje é aquele animal, amanhã é uma árvore, depois os fogos nas florestas que nos rodeiam, a destruição da capa do ozono e tantas atrocidades, tantos atentados contra a Natureza, sem dar-nos conta de que estamos agredindo-nos a nós mesmos.
O nosso planeta é como uma ilha no meio de um oceano, que se não a cuidamos com esmero, tentando, reciclar o lixo que produzimos, tentar queimar cada dia menos combustíveis fosseis, gasolinas, diesels e qualquer forma de petróleo, cuidar as florestas, rios e todas as águas existentes, um dia sofri remos as consequências desta irresponsabilidade em caiu toda a humanidade.
Admiramo-nos porque agora há mais furacões e ciclones que devastam lugares inteiros, as esquias prolongadas em alguns lugares do planeta, as altas temperaturas que estamos sofrendo em alguns lugares da Terra, e sim, muito dentro de nós sabemos que é uma forma de “vingança” da Natureza, pelas agressões que lhe fazemos diariamente.
Por isso há que pensar antes de atirar um papel para o chão e lembrar-se de falar com o gerente do seu supermercado, dizendo-lhe “que preferiria usar bolsas de papel reciclado em vez de plástico”, que é um dos artigos que mais contamina a terra.
Tanta e tanta coisa que se pode fazer, que seria necessário uma lista imensa para descrever como podemos ajudar ao nosso planeta. Lembrem-se que, por agora, só temos este.
Bom, já disse o que sinto sobre a contaminação, ainda que podia estar aqui a escrever dias e dias sobre o assunto, e depois disto seguimos direito à Pediva, a um dos ligares onde existe uma nascente de água quente no Rio Curoca.
Dentro do rio, formou-se uma espécie de piscina, ou melhor um estanque rodeado de um limo verde, que alguns dizem que é bom para curar doenças da pele, e mais abaixo outro maior em que a água não está tão quente como a do primeiro. Lembro-me que neste lugar, havia umas pedras redondas de uns trinta centímetros de diâmetro, que um dia levei aos tais amigos franceses da companhia Total e que ao chegar-lhe com um contador Géiser o aparelho começou a emitir uns sons constantes e marcava uma boa quantidade de material radioactivo. Teria isso alguma influência no que nos diziam sobre as águas curativas da Pediva? Nunca encontrei ninguém que me pudesse elucidar sobre o assunto, ficando assim, até hoje, um tema para estudar.
Depois de um bom banho, regressamos à Gruta para preparar a saída ao outro dia muito cedo, a continuação da nossa viagem.
Da gruta, pensávamos seguir em direcção ao Oceano Atlântico, através da Reserva do Iona, e dirigir-nos à foz do Rio Cunene.
Tinha estado aí, há muitos anos e era bom recordar aqueles tempos.
(Continuará na carta 5)

DEDICADA ÀS PESSOAS DE ANGOLA - 3

DEDICADA ÀS PESSOAS DE ANGOLA E AOS QUE GOSTAM DE ÁFRICA
(Carta 3)

Moçâmedes, assim se chamava a última grande cidade de Angola situada ao Sul.
Hoje a cidade tomou o nome de Namibe, que até parece que soa melhor, porque aqui começam as grandes planícies desérticas, as dunas e montanhas rochosas que continuam mais para o Sul, pela Namibia, que é o país vizinho que fica ao Sul de Angola depois de passar o Rio Cunene, que faz fronteira entre estes dois países. Depois da guerra civil, as coisas foram para o Sul de mal a pior, fecharam as grandes companhias encantadoras de atum e de sardinhas, as fábricas de farinha de peixe também fecharam e perdeu-se para o país um ingresso que era bastante importante para o PIB da região.
Muitas destas fábricas e máquinas ainda se encontram nesse lugar, depois de 30 anos, como fantasmas do que foi outrora, uma pujante industria.
Quando eu visitava esta cidade no passado, era para vir esperar algum cliente de safaris que vinha em avião até a esta cidade, para depois levá-lo a caçar ou na Gruta ou na Espinheira que eram dois dos acampamentos que usei para este fim.
Sempre me hospedava num pequeno hotel, que para mim tinha o melhor serviço da cidade, era o Hotel Welwichia. Os donos tratavam de que não nos faltasse nada, porque éramos clientes assíduos e por conseguinte uma boa fonte de ingressos para o seu hotel.
Que bem passávamos o tempo de ócio naquela cidade. Nos restaurantes da praia, comíamos os camarões grelhados e as lagostas, peixes de todas as qualidades, e especialmente disputávamos da amabilidade da gente que aí vivia.
Havia um “cabaret” também de nome Welwichia, em que nos conheciam todos, e como se diz: até o gato.
Conhecíamos as “senhoritas” que aí trabalhavam, e elas a nós. Éramos como amigos já de longa data. No sei como faziam os donos do local, o que sei é que se uma era bonita a outra não lhe ficava atrás e assim sucessivamente. Tão bonitas eram que até arranjei uma “namorada permanente” nesse lugar (mas isso é outra história). Por isso ao entrar na cidade de Namibe (Moçâmedes) me veio à mente aqueles bons tempos e tão bonitas recordações.
Como não viemos aqui para, estar a divagar e lembrar coisas passadas, que já não voltam, ficando apenas uma bela recordação, vamos continuar a nossa viagem para o Sul, em direcção a Porto Alexandre, para depois fazer um desvio e ir visitar a gruta, que durante anos serviu como base para os safaris que fazíamos no Deserto do Iona.
Com os carros revisados de óleos, travões, pneus e motor, com os tanques e os bidões cheios de gasolina e de água, pusemo-nos a caminho. Saímos uma manha bastante cedo, para aproveitar bem o dia e poder cobrir a maior extenso de terreno possível.
Tomámos a estrada que vai sempre em direcção ao Sul; andámos perto de 50 kms, até a um desvio que havia á esquerda, (direita no mapa), que nos levaria até à Gruta a uns 6 kilómetros do Rio Curoca, que limita o Parque Nacional do Iona. Aí se encontra o que chamamos a gruta, pois foi formada há muitas centenas de anos para não dizer milhares, por umas rochas imensas que ao “ajustarem-se” devido às temperaturas tão extremas que há naquelas paragens, criaram uma espécie de Gruta, que um bom amigo já falecido, que era caçador-guia, conhecido por Turra, arranjou, criando muros dentro da gruta onde fez um quarto, um salão de jantar, que eram bastante confortáveis e nos resguardavam do calor intenso do deserto.
Depois construiu umas casas com materiais da região e assim era o seu acampamento, que muitas vezes usei para realizar as minhas expedições de caça nesse lugar. O Turra, vendo que já não tinham futuro nesse país, para os safaris de caça, resolveu abandonar tudo e ir viver a Portugal. Nunca se adaptou a viver na Europa, conseguiu um emprego numa companhia de segurança e pouco tempo depois morreu.
Estou certo que morreu a pensar no “seu deserto” onde passou a maior parte da sua vida.
Hoje a Gruta está a ser explorada por “alguém” que aproveitou a visão daquele homem, a que todos chamavam Turra, e que amou aquele lugar como ninguém.
Para chegar à Gruta, tínhamos que passar por um lugar no meio do deserto, em que há um monte de pedras, e é tradição parar aí, e por uma pedra mais sobre o monte, porque os supersticiosos, dizem que: se tem que por uma pedra, para que não tenhamos problemas com os espíritos do deserto.
E como com estas coisas não há que brincar, pois aí está, umas pedrinhas mais de cada um da nossa expedição.
Para orientar-se no deserto, antigamente usávamos as velhas bússolas, mas o melhor de tudo era um guia que eu tinha, da etnia Curoca, que conhecia o deserto de maravilha.
Com o andar dos anos, as coisas foram-se modificando e hoje usamos os GPS – Ground Positional System – que é infalível podemos calcular a nossa posição com um erro de meio metro no máximo. São tão precisos que até os agrimensores hoje, deixaram os velhos teodolitos para usar os GOESES para poder precisar a situação e medidas de um terreno. Que coisas inventa o homem branco: assim diria o meu pisteiro Fombe que me acompanhou nestas terras durante muitos anos.
Até a forma de voar aviões, hoje é diferente. Aqueles mapas que usávamos, onde traçávamos a rota que devíamos tomar, considerando os ventos que nos provocavam derivações e que era uma arte saber navegar bem, fazendo cálculos matemáticos, e um sem números de contas, hoje com os GPS, se tornou tão fácil que um miúdo, daqueles excertos em computação pode fazer isso com uma mão atrás das costas.
Depois de uma hora de viagem, entramos num vale enorme de areia amarela com alguns arbustos ou espinheiras, espalhados pelo terreno, e lá ao fundo se pode divisar a Gruta, mas somente as pessoas que conhecem o terreno podem ver bem esse lugar, porque está disfarçado entre aquele monólitos de pedra, que em algum lugar têm mais de mil metros de altura.
Não sei porquê, mas lembrei-me que o Turra, o que fez desta gruta o seu acampamento, estará feliz em qualquer lugar onde se encontre a sua alma, por ver que os velhos amigos, e outros, vão visitar aquilo que ele amou tanto, e se lembram dele.
“Amigo, também pus uma pedrinha no monte por ti. Descansa em paz.”

(continua na carta No.4)

DEDICADA ÀS PESSOAS DE ANGOLA - 2

DEDICADA ÀS PESSOAS DE ANGOLA E AOS QUE GOSTAM DE ÁFRICA
(Carta 2)

Depois de ter acampado varios dias nesta belíssima praia, havia que seguir e continuar a “nossa” viagem, sabíamos por informaçâo que tivemos de um conductor de camiâo que por aí passou, que a estrada em vez de melhorar estava “um pouco mais pior” como ele nos disse.
Verificámos o óleo dos motores, a agua dos radiadores e especialmente a pressâo dos pneus pois nâo queríamos que nos atrazasse alguma avaria séria. No caminho encontramos umas pessoas que necessitavem de auxílio, para poder arranjar uma avaria que tinham na sua camionete. O nosso mecânico sempre amável arranjou como pode a avaria e com o agradecimento do rapaz que ia na camioneta, nos pusemos a caminho. Ele tinha-nos avisado que mais para os Sul, devíamos ter cuidado porque os Mukubais estavam todos armados com metralhadoras “Kalaishnikovs” e que devíamos evitar passar nesses lugares durante a noite. Seguimos sempre com a intenção de chegar a uma praia, a um lugar com muitas grutas e especialmente um que tem um arco formado pela erosão das ondas a bater na rocha. Aí queríamos acampar e mergulhar um pouco, porque para ver se durante a noite podíamos apanhar algumas lagostas, que naquela zona, são grandíssimas e com cuidado lá chegamos ao lugar que os locais chamam o FURO.
Os Mukubais, tribo que existe desde a zona do Virei, numa grande extensão, quase até ao limite do distrito de Benguela, foram durante a colónia agredidos, pois nas suas terras, se estabeleceram grandes quintas de gado, arrebatando-lhes assim as terras que lhes pertenciam por tradição.
Devo dizer que, um familiar meu tinha lá uma quinta das maiores de Angola, e foi morto por alguns Mukubais durante a guerra civil, aproveitando assim eles para vingar-se um pouco do muito mal que os colonos lhes tinham feito durante séculos.
Quando a guerra civil estalou a maioria foi armada pelas diferentes facções e partidos, e até hoje estão armados, o que não dá muita segurança ao indivíduo que passa por essas terras. Nós íamos em companhia de polícia armada, e levávamos duas viaturas, e não era fácil que nos sucedera qualquer contratempo.
Deixando as coisas desagradáveis, que sempre aparecem, porque nem tudo é beleza, seguimos para a praia e lá acampamos perto do Furo.
Mergulhar de noite, com uma lâmpada especial, não é para principiantes, deve-se ter em conta que temos uma tendência a desnortear-nos um pouco, aí a bússola serve muito para uma boa referência. Mas, o principal, é nunca mergulhar sozinho, deve-se ir sempre acompanhado porque assim há menos possibilidades de ter algum acidente.
Ai. Lagostas que durante o dia vivem em águas profundas, vêm à noite comer perto da costa onde há muitos mais nutrientes que nas grandes profundidades e aí, é então o tempo de dar-lhes caça. Não há nada como uma salada de lagosta fresca com verduras e com uma maionese fresca também. Um vinhinho branco gelado e é um prazer de Deuses.
Cozíamos umas batatas para cortá-las em cubinhos, depois um tomate cortado também em cubos, adicionávamos umas ervilhas cozidas e tenras, um pouco de pepino para quem goste, uns poucos feijões verdes cozidos, e ovo também cozido, e então sim fazíamos a maionese com um bom azeite de oliveira, e umas gemas frescas bem batidas com sal e com limão, e a comer como brutos. Era simplesmente delicioso.
Preferia aquela salada preparada na praia, na companhia de bons companheiros, que estar sentado a comer uma boa comida no Tour d’Argent em Paris. Lá eles não tinham aquele por do sol que eu podia desfrutar e gozar sentado no alto de uma rocha com a cana na mão e ter um momento para ver e sentir a Divindade da Criação Universal.
Isso sim é viver; sem a poluição das grandes cidades, em que o “soa” nos entra nos pulmões e nos arrebata uma boa parte da nossa saúde, sem a preocupação de chegar a tempo ao escritório, sem as pressões que dia a dia têm as pessoas que vivem nas grandes cidades. Aí se aprende a “ouvir o silêncio”, a apreciar o canto estridente das gaivotas, o ruído do bater das asas dos pelicanos e dos flamengos que passam por nós, certamente em direcção ao lugar onde vão a pernoitar. Aprende-se a ouvir os diferentes tons do vento ao passar entre as fendas das rochas e dos penedos, e especialmente aprende-se a ouvir o mar, que nos embala durante o nosso sono reparador. Dormimos como bebés. Profundamente e descansados, sem qualquer sobressalto, porque entre o ruído do mar e o crepitar do fogo, que o nosso ajudante mantém activo, o nosso subconsciente, ainda que alerta sempre, pode dar-se um descanso, que não é normal noutras latitudes. Nas manhãs que se seguiram foi de pescar e mergulhar para apanhar lagostas e alguns peixes que assávamos nas brasas e que banhados com um molho de manteiga se nos desfaziam na boca.
Isso era vida, até que decidíamos continuar a nossa viagem.
Quando deixámos a praia para continuar a viagem em direcção à cidade de Namibe, antes Moçâmedes, a estrada nesse lugar encontrava-se melhor e pudemos acelerar um pouco mais e não demorou muito que não avistássemos a ponte de entrada no Namibe. Outra vez as recordações vêm a nossa cabeça. Que bons tempos aqueles que passamos nessa cidade. (continua carta 3).

DEDICADA ÀS PESSOAS DE ANGOLA - 1

DEDICADA ÀS PESSOAS DE ANGOLA E AOS QUE GOSTAM DE ÁFRICA

---------**--------

Há muito tempo que não vou a Angola.

A razão principal é, – porque do que eu gosto daquele país, – não oferece ainda à pessoa que procura aventuras, a segurança necessária para poder gozar plenamente da liberdade que antes se gozava ao atravessar aquelas terras do sul, que eram os desertos e semi desertos entre o Lobito e Baia dos Tigres que são uma maravilha, como espectáculo natural.

Aí o Lobito! Uma terra que eu adorei sempre, até porque lá vivi até aos meus 10 anos. Fiz a primária numa escola, que alguém se deve lembrar dela, era a escola particular, da D. Estrela.

Que tempos aqueles, em que andávamos de capacete, “sarakof”, por causa do sol das colónias, que diziam que era malíssimo para a saúde. O bom sol africano, que nunca fez mal a ninguém, mas,... Assim pensavam os “antigos”. Ah A Restinga, a Caponte, que saudades!

Para poder descrever um pouco, do que é hoje, a vida de um aventureiro que se queira entrar nessas terras, primeiro há que pedir uma licença para fazer essa viagem ao governo, explicando tudo, o porquê, e a razão.

Então o governo, se está de acordo, manda um polícia a acompanhar a expedição, para que vigie tudo o que o grupo faz e dizer quando há que fotografar, ou não, o que se vê.

Um bom amigo há tempos fez parte de uma equipe que realizou uma viagem fantástica; com muitos problemas, mas finalmente conseguiram terminar o que se tinham proposto, com algumas alterações no itinerário, porque em África as coisas vão, como dizem os americanos, “played by the ear” “tocadas de ouvido” nunca se pode seguir a pauta traçada, antecipadamente.

Pois bem vou tentar por algumas das fotografias que eles tiraram, para que tenham uma ideia como se encontram as coisas lá, especialmente para os que conheceram a Sul de Angola, que continua sendo uma terra de contrastes, uma terra árida, mas bela, como vão a ver em algumas destas fotos.

Há coisas que um velho colono se admirará, agora ao contemplar a nova sociedade angolana. É uma sociedade nova, com gente nova.

Agora nos bares do Namibe (Moçâmedes), em que antigamente (30 anos atrás), era raro ver uma pessoa de raça negra, agora é tudo o contrário, é muito raro ver uma pessoa de raça branca dentro desses bares. A maioria dos antigos residentes abandonaram a cidade e agora vivem lá os descendentes dos antigos habitantes, e também alguns que nunca abandonaram o país apesar dos problemas que tiveram que enfrentar durante vários anos, até que a “coisa” se acalmou um pouco.

Pois bem, continuamos a nossa narração a ver se podemos por as tais fotografias que queremos para mostrar-vos a beleza daquelas terras, e assim, trazer-vos recordações dos lugares e da terra onde vocês e os vossos pais viveram.

Os nossos aventureiros queriam conhecer as fabulosas praias desertas que existem entre a Baia de Benguela e a Baia dos Tigres.

Depois de conseguir a respectiva autorização e de ser-lhes assignado um guarda de “companhia” empreenderam a viagem que ia demorar muitos dias. Esta é parte da rota que os amigos tomaram para poder tirar as fotografias que adiante se mostram.

Sabiam que Angola tem uma das costas mais ricas do Oceano Atlântico? As correntes da Baia de Benguela, atraem milhões de toneladas de peixes de diferentes espécies, que os grandes armadores aproveitam com os seus barcos de pesca, levando para os seus diferentes países, toneladas dos apreciados meros ou garoupas.

Se eu amigo/a fosses mergulhador poderias ir a muitas das praias que eu conheço, e deleitar-te mergulhando numa parede de pedra e coral, onde milhares de peixes, comem e vivem.

A fotografia que mais abaixo mostro, é uma foto que é muito difícil que se possa tirar noutro lugar que não seja a praia da Lucira, ou a do Chapéu Armado e de outras mais que existem na costa da nossa querida Angola.

Uma manha de mergulho entre três pessoas, é o resultado que se pode ver na fotografia que segue.

Usando somente os óculos, barbatanas, fato de mergulho em tempo de frio, e o arpão, conseguia-se uma boa meia tonelada de peixe numa manha.

São meros na maioria, e alguns pargos mas poucos. Eu mergulhei em muitos lugares do mundo: as Caribas, o Mar Vermelho, no Oceano Indico, nas Seychelles, em todos estes lugares, nunca na minha vida encontrei um lugar com tanto peixe como é a costa de Angola, e principalmente, neste lugar que vos descrevo.

Isto ainda se consegue hoje em alguns lugares onde a cobiça humana não chegou. Assim são, como dizia atrás, as ricas e maravilhosas águas de Angola.

Para chegar a esses lugares, não resulta nada fácil, é preciso um par de carros de tracção às quatro rodas ou sejam os 4x4, para levar tudo o necessário que implica uma viagem assim. Caixas com peças para os carros, gasolina, pneus, todo o equipamento de fotografia, artigos de cozinha, comida, bebida e especialmente muita água, sim muita água.

As estradas cada dia estão mais abandonadas, porque algumas há muitos anos que não são reparadas se não são de primeira necessidade, então há buracos por todos os lados.

É preciso o apoio de um carro a outro para poder muitas vezes sair de lugares que são verdadeiramente uma prova extrema para os Jesus e camionetas de tracção às quatro rodas.

Depois de sair de Benguela, a estrada que se dirige ao sul é perigosa, e sobretudo é terrível. Há muitos anos esta estrada estava asfaltada e era mantido muito bem, porque ainda que fosse estreita, podia-se alcançar uma grande velocidade, hoje via-se a passo de boi, porque os buracos não deixam andar a mais velocidade.

Nesta estrada, há uns trinta anos podia-se andar a mais de 120 kms por hora, hoje, se andas a 20kms já é uma sorte.

Mas para chegar a esses lugares paradisíacos todos os esforços que se façam compensam.

Andando sempre para o Sul, nesta estrada, um vai a mais de 30 kilómetros terra dentro, mas paralelo à costa, para poder visitar cada praia deserta e poder gozar de um mar, há que estar atento aos desvios que se têm que fazer, porque senão uma pessoa passa a picada, porque é muito difícil distingui-la, se não se conhece perfeitamente o terreno e essas paragens.

Tanto bamboleio, dor de costas e mãos inchadas do volante, tudo isso compensa, para conseguir chegar a lugares que são verdadeiramente fantásticos como alguns que têm as costas de Angola.

Ao chegar aí, podes montar o teu acampamento numa das muitas grutas, cavadas pela acção das marés e do vento, descansar um ou dois dias, e pescar se é que gostas deste desporto.

Continua na carta 2.

Victor Cabral