sábado, outubro 01, 2005

DEDICADA ÀS PESSOAS DE ANGOLA - 2

DEDICADA ÀS PESSOAS DE ANGOLA E AOS QUE GOSTAM DE ÁFRICA
(Carta 2)

Depois de ter acampado varios dias nesta belíssima praia, havia que seguir e continuar a “nossa” viagem, sabíamos por informaçâo que tivemos de um conductor de camiâo que por aí passou, que a estrada em vez de melhorar estava “um pouco mais pior” como ele nos disse.
Verificámos o óleo dos motores, a agua dos radiadores e especialmente a pressâo dos pneus pois nâo queríamos que nos atrazasse alguma avaria séria. No caminho encontramos umas pessoas que necessitavem de auxílio, para poder arranjar uma avaria que tinham na sua camionete. O nosso mecânico sempre amável arranjou como pode a avaria e com o agradecimento do rapaz que ia na camioneta, nos pusemos a caminho. Ele tinha-nos avisado que mais para os Sul, devíamos ter cuidado porque os Mukubais estavam todos armados com metralhadoras “Kalaishnikovs” e que devíamos evitar passar nesses lugares durante a noite. Seguimos sempre com a intenção de chegar a uma praia, a um lugar com muitas grutas e especialmente um que tem um arco formado pela erosão das ondas a bater na rocha. Aí queríamos acampar e mergulhar um pouco, porque para ver se durante a noite podíamos apanhar algumas lagostas, que naquela zona, são grandíssimas e com cuidado lá chegamos ao lugar que os locais chamam o FURO.
Os Mukubais, tribo que existe desde a zona do Virei, numa grande extensão, quase até ao limite do distrito de Benguela, foram durante a colónia agredidos, pois nas suas terras, se estabeleceram grandes quintas de gado, arrebatando-lhes assim as terras que lhes pertenciam por tradição.
Devo dizer que, um familiar meu tinha lá uma quinta das maiores de Angola, e foi morto por alguns Mukubais durante a guerra civil, aproveitando assim eles para vingar-se um pouco do muito mal que os colonos lhes tinham feito durante séculos.
Quando a guerra civil estalou a maioria foi armada pelas diferentes facções e partidos, e até hoje estão armados, o que não dá muita segurança ao indivíduo que passa por essas terras. Nós íamos em companhia de polícia armada, e levávamos duas viaturas, e não era fácil que nos sucedera qualquer contratempo.
Deixando as coisas desagradáveis, que sempre aparecem, porque nem tudo é beleza, seguimos para a praia e lá acampamos perto do Furo.
Mergulhar de noite, com uma lâmpada especial, não é para principiantes, deve-se ter em conta que temos uma tendência a desnortear-nos um pouco, aí a bússola serve muito para uma boa referência. Mas, o principal, é nunca mergulhar sozinho, deve-se ir sempre acompanhado porque assim há menos possibilidades de ter algum acidente.
Ai. Lagostas que durante o dia vivem em águas profundas, vêm à noite comer perto da costa onde há muitos mais nutrientes que nas grandes profundidades e aí, é então o tempo de dar-lhes caça. Não há nada como uma salada de lagosta fresca com verduras e com uma maionese fresca também. Um vinhinho branco gelado e é um prazer de Deuses.
Cozíamos umas batatas para cortá-las em cubinhos, depois um tomate cortado também em cubos, adicionávamos umas ervilhas cozidas e tenras, um pouco de pepino para quem goste, uns poucos feijões verdes cozidos, e ovo também cozido, e então sim fazíamos a maionese com um bom azeite de oliveira, e umas gemas frescas bem batidas com sal e com limão, e a comer como brutos. Era simplesmente delicioso.
Preferia aquela salada preparada na praia, na companhia de bons companheiros, que estar sentado a comer uma boa comida no Tour d’Argent em Paris. Lá eles não tinham aquele por do sol que eu podia desfrutar e gozar sentado no alto de uma rocha com a cana na mão e ter um momento para ver e sentir a Divindade da Criação Universal.
Isso sim é viver; sem a poluição das grandes cidades, em que o “soa” nos entra nos pulmões e nos arrebata uma boa parte da nossa saúde, sem a preocupação de chegar a tempo ao escritório, sem as pressões que dia a dia têm as pessoas que vivem nas grandes cidades. Aí se aprende a “ouvir o silêncio”, a apreciar o canto estridente das gaivotas, o ruído do bater das asas dos pelicanos e dos flamengos que passam por nós, certamente em direcção ao lugar onde vão a pernoitar. Aprende-se a ouvir os diferentes tons do vento ao passar entre as fendas das rochas e dos penedos, e especialmente aprende-se a ouvir o mar, que nos embala durante o nosso sono reparador. Dormimos como bebés. Profundamente e descansados, sem qualquer sobressalto, porque entre o ruído do mar e o crepitar do fogo, que o nosso ajudante mantém activo, o nosso subconsciente, ainda que alerta sempre, pode dar-se um descanso, que não é normal noutras latitudes. Nas manhãs que se seguiram foi de pescar e mergulhar para apanhar lagostas e alguns peixes que assávamos nas brasas e que banhados com um molho de manteiga se nos desfaziam na boca.
Isso era vida, até que decidíamos continuar a nossa viagem.
Quando deixámos a praia para continuar a viagem em direcção à cidade de Namibe, antes Moçâmedes, a estrada nesse lugar encontrava-se melhor e pudemos acelerar um pouco mais e não demorou muito que não avistássemos a ponte de entrada no Namibe. Outra vez as recordações vêm a nossa cabeça. Que bons tempos aqueles que passamos nessa cidade. (continua carta 3).

DEDICADA ÀS PESSOAS DE ANGOLA - 1

DEDICADA ÀS PESSOAS DE ANGOLA E AOS QUE GOSTAM DE ÁFRICA

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Há muito tempo que não vou a Angola.

A razão principal é, – porque do que eu gosto daquele país, – não oferece ainda à pessoa que procura aventuras, a segurança necessária para poder gozar plenamente da liberdade que antes se gozava ao atravessar aquelas terras do sul, que eram os desertos e semi desertos entre o Lobito e Baia dos Tigres que são uma maravilha, como espectáculo natural.

Aí o Lobito! Uma terra que eu adorei sempre, até porque lá vivi até aos meus 10 anos. Fiz a primária numa escola, que alguém se deve lembrar dela, era a escola particular, da D. Estrela.

Que tempos aqueles, em que andávamos de capacete, “sarakof”, por causa do sol das colónias, que diziam que era malíssimo para a saúde. O bom sol africano, que nunca fez mal a ninguém, mas,... Assim pensavam os “antigos”. Ah A Restinga, a Caponte, que saudades!

Para poder descrever um pouco, do que é hoje, a vida de um aventureiro que se queira entrar nessas terras, primeiro há que pedir uma licença para fazer essa viagem ao governo, explicando tudo, o porquê, e a razão.

Então o governo, se está de acordo, manda um polícia a acompanhar a expedição, para que vigie tudo o que o grupo faz e dizer quando há que fotografar, ou não, o que se vê.

Um bom amigo há tempos fez parte de uma equipe que realizou uma viagem fantástica; com muitos problemas, mas finalmente conseguiram terminar o que se tinham proposto, com algumas alterações no itinerário, porque em África as coisas vão, como dizem os americanos, “played by the ear” “tocadas de ouvido” nunca se pode seguir a pauta traçada, antecipadamente.

Pois bem vou tentar por algumas das fotografias que eles tiraram, para que tenham uma ideia como se encontram as coisas lá, especialmente para os que conheceram a Sul de Angola, que continua sendo uma terra de contrastes, uma terra árida, mas bela, como vão a ver em algumas destas fotos.

Há coisas que um velho colono se admirará, agora ao contemplar a nova sociedade angolana. É uma sociedade nova, com gente nova.

Agora nos bares do Namibe (Moçâmedes), em que antigamente (30 anos atrás), era raro ver uma pessoa de raça negra, agora é tudo o contrário, é muito raro ver uma pessoa de raça branca dentro desses bares. A maioria dos antigos residentes abandonaram a cidade e agora vivem lá os descendentes dos antigos habitantes, e também alguns que nunca abandonaram o país apesar dos problemas que tiveram que enfrentar durante vários anos, até que a “coisa” se acalmou um pouco.

Pois bem, continuamos a nossa narração a ver se podemos por as tais fotografias que queremos para mostrar-vos a beleza daquelas terras, e assim, trazer-vos recordações dos lugares e da terra onde vocês e os vossos pais viveram.

Os nossos aventureiros queriam conhecer as fabulosas praias desertas que existem entre a Baia de Benguela e a Baia dos Tigres.

Depois de conseguir a respectiva autorização e de ser-lhes assignado um guarda de “companhia” empreenderam a viagem que ia demorar muitos dias. Esta é parte da rota que os amigos tomaram para poder tirar as fotografias que adiante se mostram.

Sabiam que Angola tem uma das costas mais ricas do Oceano Atlântico? As correntes da Baia de Benguela, atraem milhões de toneladas de peixes de diferentes espécies, que os grandes armadores aproveitam com os seus barcos de pesca, levando para os seus diferentes países, toneladas dos apreciados meros ou garoupas.

Se eu amigo/a fosses mergulhador poderias ir a muitas das praias que eu conheço, e deleitar-te mergulhando numa parede de pedra e coral, onde milhares de peixes, comem e vivem.

A fotografia que mais abaixo mostro, é uma foto que é muito difícil que se possa tirar noutro lugar que não seja a praia da Lucira, ou a do Chapéu Armado e de outras mais que existem na costa da nossa querida Angola.

Uma manha de mergulho entre três pessoas, é o resultado que se pode ver na fotografia que segue.

Usando somente os óculos, barbatanas, fato de mergulho em tempo de frio, e o arpão, conseguia-se uma boa meia tonelada de peixe numa manha.

São meros na maioria, e alguns pargos mas poucos. Eu mergulhei em muitos lugares do mundo: as Caribas, o Mar Vermelho, no Oceano Indico, nas Seychelles, em todos estes lugares, nunca na minha vida encontrei um lugar com tanto peixe como é a costa de Angola, e principalmente, neste lugar que vos descrevo.

Isto ainda se consegue hoje em alguns lugares onde a cobiça humana não chegou. Assim são, como dizia atrás, as ricas e maravilhosas águas de Angola.

Para chegar a esses lugares, não resulta nada fácil, é preciso um par de carros de tracção às quatro rodas ou sejam os 4x4, para levar tudo o necessário que implica uma viagem assim. Caixas com peças para os carros, gasolina, pneus, todo o equipamento de fotografia, artigos de cozinha, comida, bebida e especialmente muita água, sim muita água.

As estradas cada dia estão mais abandonadas, porque algumas há muitos anos que não são reparadas se não são de primeira necessidade, então há buracos por todos os lados.

É preciso o apoio de um carro a outro para poder muitas vezes sair de lugares que são verdadeiramente uma prova extrema para os Jesus e camionetas de tracção às quatro rodas.

Depois de sair de Benguela, a estrada que se dirige ao sul é perigosa, e sobretudo é terrível. Há muitos anos esta estrada estava asfaltada e era mantido muito bem, porque ainda que fosse estreita, podia-se alcançar uma grande velocidade, hoje via-se a passo de boi, porque os buracos não deixam andar a mais velocidade.

Nesta estrada, há uns trinta anos podia-se andar a mais de 120 kms por hora, hoje, se andas a 20kms já é uma sorte.

Mas para chegar a esses lugares paradisíacos todos os esforços que se façam compensam.

Andando sempre para o Sul, nesta estrada, um vai a mais de 30 kilómetros terra dentro, mas paralelo à costa, para poder visitar cada praia deserta e poder gozar de um mar, há que estar atento aos desvios que se têm que fazer, porque senão uma pessoa passa a picada, porque é muito difícil distingui-la, se não se conhece perfeitamente o terreno e essas paragens.

Tanto bamboleio, dor de costas e mãos inchadas do volante, tudo isso compensa, para conseguir chegar a lugares que são verdadeiramente fantásticos como alguns que têm as costas de Angola.

Ao chegar aí, podes montar o teu acampamento numa das muitas grutas, cavadas pela acção das marés e do vento, descansar um ou dois dias, e pescar se é que gostas deste desporto.

Continua na carta 2.

Victor Cabral