DEDICADA ÀS PESSOAS DE ANGOLA E AOS QUE GOSTAM DE ÁFRICA
(Carta 3)
Moçâmedes, assim se chamava a última grande cidade de Angola situada ao Sul.
Hoje a cidade tomou o nome de Namibe, que até parece que soa melhor, porque aqui começam as grandes planícies desérticas, as dunas e montanhas rochosas que continuam mais para o Sul, pela Namibia, que é o país vizinho que fica ao Sul de Angola depois de passar o Rio Cunene, que faz fronteira entre estes dois países. Depois da guerra civil, as coisas foram para o Sul de mal a pior, fecharam as grandes companhias encantadoras de atum e de sardinhas, as fábricas de farinha de peixe também fecharam e perdeu-se para o país um ingresso que era bastante importante para o PIB da região.
Muitas destas fábricas e máquinas ainda se encontram nesse lugar, depois de 30 anos, como fantasmas do que foi outrora, uma pujante industria.
Quando eu visitava esta cidade no passado, era para vir esperar algum cliente de safaris que vinha em avião até a esta cidade, para depois levá-lo a caçar ou na Gruta ou na Espinheira que eram dois dos acampamentos que usei para este fim.
Sempre me hospedava num pequeno hotel, que para mim tinha o melhor serviço da cidade, era o Hotel Welwichia. Os donos tratavam de que não nos faltasse nada, porque éramos clientes assíduos e por conseguinte uma boa fonte de ingressos para o seu hotel.
Que bem passávamos o tempo de ócio naquela cidade. Nos restaurantes da praia, comíamos os camarões grelhados e as lagostas, peixes de todas as qualidades, e especialmente disputávamos da amabilidade da gente que aí vivia.
Havia um “cabaret” também de nome Welwichia, em que nos conheciam todos, e como se diz: até o gato.
Conhecíamos as “senhoritas” que aí trabalhavam, e elas a nós. Éramos como amigos já de longa data. No sei como faziam os donos do local, o que sei é que se uma era bonita a outra não lhe ficava atrás e assim sucessivamente. Tão bonitas eram que até arranjei uma “namorada permanente” nesse lugar (mas isso é outra história). Por isso ao entrar na cidade de Namibe (Moçâmedes) me veio à mente aqueles bons tempos e tão bonitas recordações.
Como não viemos aqui para, estar a divagar e lembrar coisas passadas, que já não voltam, ficando apenas uma bela recordação, vamos continuar a nossa viagem para o Sul, em direcção a Porto Alexandre, para depois fazer um desvio e ir visitar a gruta, que durante anos serviu como base para os safaris que fazíamos no Deserto do Iona.
Com os carros revisados de óleos, travões, pneus e motor, com os tanques e os bidões cheios de gasolina e de água, pusemo-nos a caminho. Saímos uma manha bastante cedo, para aproveitar bem o dia e poder cobrir a maior extenso de terreno possível.
Tomámos a estrada que vai sempre em direcção ao Sul; andámos perto de 50 kms, até a um desvio que havia á esquerda, (direita no mapa), que nos levaria até à Gruta a uns 6 kilómetros do Rio Curoca, que limita o Parque Nacional do Iona. Aí se encontra o que chamamos a gruta, pois foi formada há muitas centenas de anos para não dizer milhares, por umas rochas imensas que ao “ajustarem-se” devido às temperaturas tão extremas que há naquelas paragens, criaram uma espécie de Gruta, que um bom amigo já falecido, que era caçador-guia, conhecido por Turra, arranjou, criando muros dentro da gruta onde fez um quarto, um salão de jantar, que eram bastante confortáveis e nos resguardavam do calor intenso do deserto.
Depois construiu umas casas com materiais da região e assim era o seu acampamento, que muitas vezes usei para realizar as minhas expedições de caça nesse lugar. O Turra, vendo que já não tinham futuro nesse país, para os safaris de caça, resolveu abandonar tudo e ir viver a Portugal. Nunca se adaptou a viver na Europa, conseguiu um emprego numa companhia de segurança e pouco tempo depois morreu.
Estou certo que morreu a pensar no “seu deserto” onde passou a maior parte da sua vida.
Hoje a Gruta está a ser explorada por “alguém” que aproveitou a visão daquele homem, a que todos chamavam Turra, e que amou aquele lugar como ninguém.
Para chegar à Gruta, tínhamos que passar por um lugar no meio do deserto, em que há um monte de pedras, e é tradição parar aí, e por uma pedra mais sobre o monte, porque os supersticiosos, dizem que: se tem que por uma pedra, para que não tenhamos problemas com os espíritos do deserto.
E como com estas coisas não há que brincar, pois aí está, umas pedrinhas mais de cada um da nossa expedição.
Para orientar-se no deserto, antigamente usávamos as velhas bússolas, mas o melhor de tudo era um guia que eu tinha, da etnia Curoca, que conhecia o deserto de maravilha.
Com o andar dos anos, as coisas foram-se modificando e hoje usamos os GPS – Ground Positional System – que é infalível podemos calcular a nossa posição com um erro de meio metro no máximo. São tão precisos que até os agrimensores hoje, deixaram os velhos teodolitos para usar os GOESES para poder precisar a situação e medidas de um terreno. Que coisas inventa o homem branco: assim diria o meu pisteiro Fombe que me acompanhou nestas terras durante muitos anos.
Até a forma de voar aviões, hoje é diferente. Aqueles mapas que usávamos, onde traçávamos a rota que devíamos tomar, considerando os ventos que nos provocavam derivações e que era uma arte saber navegar bem, fazendo cálculos matemáticos, e um sem números de contas, hoje com os GPS, se tornou tão fácil que um miúdo, daqueles excertos em computação pode fazer isso com uma mão atrás das costas.
Depois de uma hora de viagem, entramos num vale enorme de areia amarela com alguns arbustos ou espinheiras, espalhados pelo terreno, e lá ao fundo se pode divisar a Gruta, mas somente as pessoas que conhecem o terreno podem ver bem esse lugar, porque está disfarçado entre aquele monólitos de pedra, que em algum lugar têm mais de mil metros de altura.
Não sei porquê, mas lembrei-me que o Turra, o que fez desta gruta o seu acampamento, estará feliz em qualquer lugar onde se encontre a sua alma, por ver que os velhos amigos, e outros, vão visitar aquilo que ele amou tanto, e se lembram dele.
“Amigo, também pus uma pedrinha no monte por ti. Descansa em paz.”
(continua na carta No.4)
Moçâmedes, assim se chamava a última grande cidade de Angola situada ao Sul.
Hoje a cidade tomou o nome de Namibe, que até parece que soa melhor, porque aqui começam as grandes planícies desérticas, as dunas e montanhas rochosas que continuam mais para o Sul, pela Namibia, que é o país vizinho que fica ao Sul de Angola depois de passar o Rio Cunene, que faz fronteira entre estes dois países. Depois da guerra civil, as coisas foram para o Sul de mal a pior, fecharam as grandes companhias encantadoras de atum e de sardinhas, as fábricas de farinha de peixe também fecharam e perdeu-se para o país um ingresso que era bastante importante para o PIB da região.
Muitas destas fábricas e máquinas ainda se encontram nesse lugar, depois de 30 anos, como fantasmas do que foi outrora, uma pujante industria.
Quando eu visitava esta cidade no passado, era para vir esperar algum cliente de safaris que vinha em avião até a esta cidade, para depois levá-lo a caçar ou na Gruta ou na Espinheira que eram dois dos acampamentos que usei para este fim.
Sempre me hospedava num pequeno hotel, que para mim tinha o melhor serviço da cidade, era o Hotel Welwichia. Os donos tratavam de que não nos faltasse nada, porque éramos clientes assíduos e por conseguinte uma boa fonte de ingressos para o seu hotel.
Que bem passávamos o tempo de ócio naquela cidade. Nos restaurantes da praia, comíamos os camarões grelhados e as lagostas, peixes de todas as qualidades, e especialmente disputávamos da amabilidade da gente que aí vivia.
Havia um “cabaret” também de nome Welwichia, em que nos conheciam todos, e como se diz: até o gato.
Conhecíamos as “senhoritas” que aí trabalhavam, e elas a nós. Éramos como amigos já de longa data. No sei como faziam os donos do local, o que sei é que se uma era bonita a outra não lhe ficava atrás e assim sucessivamente. Tão bonitas eram que até arranjei uma “namorada permanente” nesse lugar (mas isso é outra história). Por isso ao entrar na cidade de Namibe (Moçâmedes) me veio à mente aqueles bons tempos e tão bonitas recordações.
Como não viemos aqui para, estar a divagar e lembrar coisas passadas, que já não voltam, ficando apenas uma bela recordação, vamos continuar a nossa viagem para o Sul, em direcção a Porto Alexandre, para depois fazer um desvio e ir visitar a gruta, que durante anos serviu como base para os safaris que fazíamos no Deserto do Iona.
Com os carros revisados de óleos, travões, pneus e motor, com os tanques e os bidões cheios de gasolina e de água, pusemo-nos a caminho. Saímos uma manha bastante cedo, para aproveitar bem o dia e poder cobrir a maior extenso de terreno possível.
Tomámos a estrada que vai sempre em direcção ao Sul; andámos perto de 50 kms, até a um desvio que havia á esquerda, (direita no mapa), que nos levaria até à Gruta a uns 6 kilómetros do Rio Curoca, que limita o Parque Nacional do Iona. Aí se encontra o que chamamos a gruta, pois foi formada há muitas centenas de anos para não dizer milhares, por umas rochas imensas que ao “ajustarem-se” devido às temperaturas tão extremas que há naquelas paragens, criaram uma espécie de Gruta, que um bom amigo já falecido, que era caçador-guia, conhecido por Turra, arranjou, criando muros dentro da gruta onde fez um quarto, um salão de jantar, que eram bastante confortáveis e nos resguardavam do calor intenso do deserto.
Depois construiu umas casas com materiais da região e assim era o seu acampamento, que muitas vezes usei para realizar as minhas expedições de caça nesse lugar. O Turra, vendo que já não tinham futuro nesse país, para os safaris de caça, resolveu abandonar tudo e ir viver a Portugal. Nunca se adaptou a viver na Europa, conseguiu um emprego numa companhia de segurança e pouco tempo depois morreu.
Estou certo que morreu a pensar no “seu deserto” onde passou a maior parte da sua vida.
Hoje a Gruta está a ser explorada por “alguém” que aproveitou a visão daquele homem, a que todos chamavam Turra, e que amou aquele lugar como ninguém.
Para chegar à Gruta, tínhamos que passar por um lugar no meio do deserto, em que há um monte de pedras, e é tradição parar aí, e por uma pedra mais sobre o monte, porque os supersticiosos, dizem que: se tem que por uma pedra, para que não tenhamos problemas com os espíritos do deserto.
E como com estas coisas não há que brincar, pois aí está, umas pedrinhas mais de cada um da nossa expedição.
Para orientar-se no deserto, antigamente usávamos as velhas bússolas, mas o melhor de tudo era um guia que eu tinha, da etnia Curoca, que conhecia o deserto de maravilha.
Com o andar dos anos, as coisas foram-se modificando e hoje usamos os GPS – Ground Positional System – que é infalível podemos calcular a nossa posição com um erro de meio metro no máximo. São tão precisos que até os agrimensores hoje, deixaram os velhos teodolitos para usar os GOESES para poder precisar a situação e medidas de um terreno. Que coisas inventa o homem branco: assim diria o meu pisteiro Fombe que me acompanhou nestas terras durante muitos anos.
Até a forma de voar aviões, hoje é diferente. Aqueles mapas que usávamos, onde traçávamos a rota que devíamos tomar, considerando os ventos que nos provocavam derivações e que era uma arte saber navegar bem, fazendo cálculos matemáticos, e um sem números de contas, hoje com os GPS, se tornou tão fácil que um miúdo, daqueles excertos em computação pode fazer isso com uma mão atrás das costas.
Depois de uma hora de viagem, entramos num vale enorme de areia amarela com alguns arbustos ou espinheiras, espalhados pelo terreno, e lá ao fundo se pode divisar a Gruta, mas somente as pessoas que conhecem o terreno podem ver bem esse lugar, porque está disfarçado entre aquele monólitos de pedra, que em algum lugar têm mais de mil metros de altura.
Não sei porquê, mas lembrei-me que o Turra, o que fez desta gruta o seu acampamento, estará feliz em qualquer lugar onde se encontre a sua alma, por ver que os velhos amigos, e outros, vão visitar aquilo que ele amou tanto, e se lembram dele.
“Amigo, também pus uma pedrinha no monte por ti. Descansa em paz.”
(continua na carta No.4)

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